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O MAL HUMANO


CONTENÇÃO

TEMPORADA 0: EPISÓDIO 3






UMA SÉRIE LITERÁRIA DE

Joel G. Gomes




Edição de Autor

2017




UMA CHAMADA A MEIO DA NOITE


Para pagar uma dívida antiga, a agente Catarina Beja, da Brigada de Crimes Macabros, é obrigada a regressar à sua aldeia natal, perto de Cabeçais de Baixo, para investigar a morte do pai de uma amiga de infância.


TRAZ O PASSADO DE VOLTA


Catarina percebe que essa morte é apenas uma de muitas que têm acontecido ao longo das últimas semanas. À medida que a sua investigação avança, é forçada a relembrar os eventos que a levaram a fugir daquele Inferno disfarçado de Paraíso.


E TODOS OS SEUS HORRORES…


Ao mesmo tempo que descobre que nem todos tiveram a mesma sorte que ela, Catarina é confrontada com uma realidade oculta no seio da comunidade. Uma tradição misteriosa que parece de alguma forma ligada ao seu passado…



Contenção, de Joel G. Gomes

Série: O Mal Humano (Temporada 0: Episódio 3)

Edição de Autor


http://joelggomes.com/o-mal-humano-0-3-contencao/


© 2017 Joel G. Gomes


Texto e capa por Joel G. Gomes






Para a Elsa,

e os seus mundos imaginários.




Índice de conteúdos



O LIVRO É TEU, MAS A HISTÓRIA É MINHA

VIAGEM A TERRAS QUE NÃO EXISTEM

1

2

3

4

5

6

7

AGRADECIMENTO

SOBRE O AUTOR

O livro é teu, mas a história é minha



Esta história (como qualquer outra) deu-me trabalho a escrever. Foi preciso pesquisa, tempo e paciência para que encontrasse as palavras adequadas. Mesmo que não aprecies o resultado final, valoriza esse esforço comentando esta história, partilhando-a e incentivando outros a comentar. Da minha parte fica um agradecimento e uma promessa de poder retribuir com mais histórias, além das que podes descobrir em www.joelggomes.com e em várias plataformas.

(E se por acaso não obtiveste este livro da maneira mais lícita, que isso não seja razão para não dares o teu comentário.)

viagem a terras que não existem



O episódio anterior desta série terminava com uma perseguição a alta-velocidade, numa noite de tempestade, pelas curvas e contracurvas da Serra do Núncio. É provável que este local não vos diga nada, porque é um sítio que não existe a não ser neste universo. Na minha mente fica em Portugal, na zona de Caldas da Rainha, mas não vale a pena irem lá procurar porque não o irão encontrar.

Neste episódio são apresentadas mais duas terras imaginadas – Cabeçais de Baixo e Cortenhal-da-Serra, na zona de São Pedro do Sul e Ventosa –, mas a sua criação não é obra da minha imaginação e sim da minha amiga e autora Elsa Leal, na história Condutores de Almas.

Essa história, além de introduzir um universo mágico com bastante potencial, apresenta-nos a um grupo de irmãs, praticantes de bruxaria, e a toda uma Tradição familiar de práticas mágicas que data do tempo da Inquisição. É a história de uma maldição, de um desejo de vingança insaciável. Mas é também uma história de violência doméstica, de obediência cega, de crença inabalável.

Tal como em episódios anteriores, os eventos que aqui apresento acompanharão a protagonista desta história um pouco por toda a série. A grande diferença neste caso é que esta história e, por consequência, todo este universo passa a estar ligado ao universo mágico onde decorre a história de Elsa Leal.

Apesar de encerrar a história principal, a autora deixa alguns elementos para explorar, nomeadamente a existência de outras famílias, com outros propósitos dentro da tal Tradição, bem como da existência de grupos semelhantes noutros locais. Resolvi aproveitar isso, pois claro.

Em Condutores de Almas ocorre uma morte que não devia ocorrer (no sentido em que viola as regras da Tradição, não no sentido em que é errado matar) e isso traz consequências. Com a permissão da autora, eu resolvi explorar essas consequências e usá-las como pano de fundo para a apresentação da minha personagem, Catarina Beja.

A Catarina Beja é natural de Cabeçais de Baixo. Nasceu e passou parte da infância lá, até que foi obrigada a abandonar a terra, com o desejo de não mais voltar. Para ela é um regresso a um sítio que nunca foi um lar; para quem lê, conheça já ou não Cabeçais de Baixo, é o início de uma viagem ao passado de uma das personagens mais relevantes desta série. Espero que gostem.



1



Vale da Amoreira, Moita

23 de Maio de 2009, madrugada


Após mais uma tentativa falhada de verter o café para a chávena sem entornar, Catarina Beja concluiu que mais valia desistir. Eram três da manhã, hora a que costumava – devia, aliás, estar – a dormir. Ao invés, estava na cozinha, a decidir se bebia um café para se acalmar, ou se ia para a cama fingir que dormia. Conhecia-se bem demais para saber que a segunda opção nem valia a pena considerar. Sobretudo depois do telefonema que recebera uma hora antes.

A chamada viera de um número anónimo e Catarina hesitara em atender. Além dos seus colegas de brigada, que mais depressa ligariam para o seu telemóvel, não sabia quem poderia estar a ligar. Tinha visitado a avó naquela tarde e estava tudo bem com ela. Dentro do que era possível.Vendedores não iam ligar àquela hora – em princípio. De qualquer modo, atendera. E depressa se arrependera.

“Sim?” Tentou soar tão alerta quanto possível, mas acabou por soltar um bocejo.

“Catarina, daqui fala a Sónia, Sónia Mariquito.”

O nome atingiu-a como um murro no estômago. Sónia Mariquito era um nome que fazia parte de um passado que Catarina se esforçava por esquecer. De muitas maneiras, teria preferido o tal murro.

“Não sei se te lembras…”

Como podia ela não se lembrar? O difícil era esquecer.

“Onde é que arranjaste o meu número?”

Era isso que mais importava saber. Não porque resolvera pôr fim a um silêncio de quase duas décadas. Às duas da manhã, ainda por cima.

Ela e Sónia eram naturais de Cabeçais de Baixo, uma pequena aldeia perto de Ventosa. A sua infância lá ficara marcada pela dor e pela vergonha. Sónia sofrera com ela, partilharam dos mesmos traumas, mas isso não as aproximara. Nem todas as experiências partilhadas se transformavam em amizades para a vida. Na verdade, conhecer alguém que passara pelo mesmo só tornava difícil esquecer.

“A tua avó deu-mo.”

“Tu falaste com a minha avó?”

Não sabia se estava mais chateada por Sónia ter ido incomodar a sua avó ou por ninguém no centro de apoio ter mencionado que a avó tivera visitas.

“Não. Ela ligou para mim uma vez.”

A sua avó ligara para ela? Só podia estar a brincar.

“A minha avó está senil. Custa-me a crer que tenha ligado para ti.”

“Quando falei com ela pareceu-me normal. De qualquer forma, isto foi há quase dois anos. Nunca tinha precisado de te ligar antes.”

“E precisaste hoje às duas da manhã? Porquê?”

“O meu pai morreu.”

Catarina respirou fundo e pôs a animosidade de lado. Apesar dos anos passados, lembrava-se bem do Sr. Mariquito. Freguês ocasional das tascas da aldeia (gentilmente referido como o “entornado”, o “pipas” ou o “seca-adegas”), a sua assiduidade aumentara de forma exponencial depois da mãe de Sónia ter morrido, era ela ainda criança. Manuel Mariquito não era mau pai, porém estava longe de ser um pai exemplar. A morte da esposa deixara-o com um vazio no coração que a filha não conseguia preencher, mesmo que tentasse. Mas isso não significava que vivessem afastados. Sónia podia ter muitos defeitos, tal como o pai, mas adoravam-se mutuamente.

Apesar de ter todas as razões do mundo para culpar o pai por não ter feito nada para impedir o que lhe acontecera, Sónia nunca lhe apontara o dedo. Havia monstros que só o amor não conseguia vencer. Ambas sabiam isso melhor que ninguém.

“Os meus pêsames. Quando é que foi isso?”

“Esta noite, por volta da meia-noite. A polícia acabou de sair daqui.”

“A polícia?” De repente, a hora da chamada começou a fazer mais sentido. “Como é que teu pai morreu, ao certo?”

“Se não te importas, prefiro contar-te tudo frente a frente quando aqui chegares.”

Catarina teve de repetir para si mesma o que acabara de ouvir, só para ter a certeza.

“Nem penses, Sónia. Lamento muito que o teu pai tenha morrido, a sério que lamento, mas eu jurei para mim mesma que não voltaria a pôr os pés aí.”

Sónia ficou alguns momentos sem responder. Catarina queria terminar a chamada, desligar o telefone da ficha, colocar o telemóvel no silêncio, esquecer que o seu sono tinha sido interrompido por um pesadelo real e tentar regressar a Vale de Lençóis, com a esperança de não sofrer ataques por parte do seu subconsciente. Segundos passaram, poucos segundos que àquela hora pareciam muitos. Eram segundos de antecipação, uma antecipação para algo mau. Era assim quando tinha treze anos e aquela chamada estava a parecer cada vez mais um regresso ao passado.

“Tu estás em dívida”, disse Sónia. Quase que podia vê-la de indicador em riste, acusando-a.

“Não sei do que é que estás a falar.”

“Não finjas que não te lembras. Estávamos lá as duas.”

Catarina aproveitou a deixa para tentar inverter o ônus da responsabilidade.

“Sim, estávamos as duas lá. O que faz com que sejamos as duas responsáveis.”

“Foi por isso que fugiste? Não quiseste assumir a tua responsabilidade, não foi? Pois bem, alguém teve de assumir.”

Catarina ficou sem palavras. Sentia-se desorientada como há muito não lhe acontecia.

“Porquê?”, perguntou, por fim.

“Porque tu e a tua avó tinham desaparecido e eu não achei que valesse a pena falar de ti.”

“É por isso que dizes que estou em dívida para contigo?”

“Eu não digo, tu estás em dívida.”

“Ao certo, o que é que queres que eu vá aí fazer?”

“Conto tudo assim que chegares.”

“Não. Dívidas ou não, se eu for aí quero saber de antemão ao que vou.”

A resposta de Sónia veio mais depressa do que ela estava à espera.

“O meu pai foi morto porque descobriu algo que não devia.”

“E queres que eu faça o quê?”

“O teu nome saiu nas notícias aqui há tempos. Sei que és agente da PIN. Quero que me ajudes a investigar o que aconteceu.”

“Eu investigo falsificações de documentos e obras de arte, não homicídios.”

“És a única agente que eu conheço. E a única em quem posso confiar.”

A chamada ficara por aí, mais conversa menos conversa. Catarina não dissera nem sim nem não, e agora estava arrependida de não ter tido a coragem (e a honestidade) de recusar. Sentia-se roída de ansiedade pela iminência de voltar a um sítio onde jurara nunca mais voltar.

Mas tinha de ir. Era o mínimo que podia fazer para retribuir o gesto que Sónia fizera por ela durante todos aqueles anos. As memórias e os traumas do passado teriam de ficar para depois.




2



A bordo do Inter-Regional para Viseu

23 de Maio de 2009, por volta das 19:00


Catarina pousou a caneta e olhou para o que tinha acabado de escrever. Lamentou a falta de uma base de apoio decente para colocar as folhas. A oscilação do comboio estragava a sua bela caligrafia; ainda assim, conseguia ter uma letra mais legível que a de Hélder, ou mesmo a de Sara. Doutores…

Dentro de momentos o comboio chegaria ao Entroncamento. Alguns dos passageiros começavam a levantar-se e a preparar-se para o transbordo. Catarina aproveitou para se levantar também e esticar um pouco as pernas. Ainda tinha uns bons quilómetros de viagem até São Pedro do Sul. Havia outras maneiras, todas elas mais rápidas e económicas, de chegar ao seu destino. Não podendo evitar a viagem, fizera o que estava ao seu alcance para adiar a sua chegada o mais possível, sem parecer que o estava a fazer.

O comboio parou. O corredor ficou entupido com passageiros a tentar sair, outros a tentar entrar. Ela olhou para o depósito das malas para ter a certeza de que ninguém levava a sua por engano, apenas para se lembrar que trazia apenas a sua pasta e nada mais. Ela que tinha uma mala de viagem sempre pronta, levava só a roupa que trazia vestida e a mala com o portátil e alguns papéis. Era o quanto ela queria não ir.

Só depois do comboio ter iniciado viagem é que se lembrara que iria fazer-lhe falta pelo menos uma muda de roupa interior. O resto ainda se aguentava. Talvez em Águeda conseguisse dar um salto a uma loja do chinês, só para desenrascar. Era o que dava não dormir nada de jeito. Sentiu uma certa inveja do passageiro que dormia no banco da frente. Quem lhe dera ter a consciência tão tranquila.

Sentiu o comboio retomar a marcha. Sentou-se e olhou para a cópia em tamanho reduzido de um quadro encontrado na casa do falecido inspector Simões. Com mais de seis meses passados, o caso estava oficialmente arquivado, mas Hélder não acatara essa decisão e pedira-lhe que avaliasse a origem dessa obra. Catarina releu o que escrevera e continuou:

«Um entroncamento na noite; a paisagem circundante revela uma mescla de moderno e bucólico; em destaque dois v—»

“Está no meu lugar.”

A interrupção fê-la prolongar o V para lá do limite da folha. Olhou para o lado e viu um jovem de fato escuro, mala a tiracolo, e ar de enterro. Tinha ar de quem havia matado os pais.

“Perdão?”

“Está no meu lugar.”

“A sério?” Procurou o bilhete na bolsa e consultou o número do assento: 114. Estava certo.

“O meu lugar é o 114.”

“O 114 é o que fica no lado do corredor. Onde você está é o 116.”

Você. Ele não devia ter assim tantos anos a menos que ela, mas aquele comentário fê-la sentir-se mais velha que a sua avó.

“Tem razão.” Não valia a pena continuar a discussão. Alguém que embirrava com uma merdinha daquelas já tinha uma vida triste o suficiente. Mesmo que não tivesse matado os pais. “O erro foi meu.”

Enfiou os papéis na pasta, pegou na bolsa e levantou-se. O jovem sentou-se à janela, nem obrigado nem nada, tirou um livro da mala e colocou-a no chão.

Catarina sentou-se no seu novo lugar e retirou as folhas da pasta para retomar a sua pesquisa. Talvez a mudança de ares a inspirasse.

Mais uma vez, olhou para a imagem que Hélder lhe tinha pedido para analisar e continuou a tomar notas.

«O estilo apresenta traços de Surrealismo (os veículos não têm rodas e sim asas), com algumas notas de Ilusionismo. As cores usadas e o jogo de luzes fazem lembrar Bosch. A via principal do entroncamento está desviada à esquerda. Os elementos da imagem não estão centrados.»

O inspector Simões tinha morrido num acidente de viação. Por se tratar de um agente da lei, o seu veículo fora analisado diversas vezes, sem que em alguma vez tivessem sido descobertos quaisquer indícios de sabotagem. Na semana passada, Hélder encontrara aquela imagem e concluíra que ela representava a morte do seu colega e amigo.

Era inegável que havia semelhanças, podia até representar o que tinha acontecido (menos a parte dos carros terem asas), mas tinha dúvidas que aquela imagem pudesse explicar qualquer mistério que existisse em torno da morte do inspector Simões.

Passado algum tempo, voltou a ser interrompida.

“Peço desculpa por há pouco.”

Foi só graças à educação que a avó lhe deu que Catarina olhou para o vizinho do lado. Caso contrário, teria feito ouvidos de mercador.

“Não tem problema”, respondeu.

Tornou a virar a sua atenção para os papéis que tinha consigo e conseguiu estar dois minutos seguidos a observar a imagem, em busca de alguma pista e, quando por fim a descobriu:

“Foi você que pintou isso?”

Outra vez o você? Tudo bem que já não tinha o mesmo tom irritante de antes, mas mesmo assim…

Sem desviar os olhos da folha onde ia tomando algumas notas, disse: “Não.”

Curto e grosso. Sem querer ser rude, era a melhor maneira de terminar a conversa.

“A minha mãe costumava pintar.”

Quase que disse antes de matar? Conteve-se. Suspirou para dentro e continuou a escrever.

“Disse costumava? Perdeu o interesse?”

“Não. Perdeu a vida.”

Catarina engasgou-se, teve um ataque de tosse, recuperou a postura, olhou para ele e disse: “Os meus pêsames.” Depois, não porque tivesse especial interesse, mas porque sabia o que era não ter mãe, perguntou: “Morreu de quê, se não for indiscrição?”

“Acidente de viação. Ela e o meu pai.”

Parou de olhar para ele como um parricida e viu alguém não muito diferente dela. A sua voz soava vazia – a voz de alguém ainda no início da vida que de um momento para o outro ficava sem caminho. Dizer-lhe que ia tudo correr bem não seria uma mentira, mas também não seria uma verdade – um tiro escuro, apenas isso.

“Lamento muito.” Não havia assim tantas alternativas. “Foi há muito tempo?”

“Faz hoje duas semanas.”

“Resolveu mudar um pouco de ares?”

“De que é que adianta irmos até ao fim do mundo se o nosso passado nunca fica para trás?”

Catarina identificou-se tanto com aquelas palavras que quase sentiu que estava a ter um diálogo com ela própria. Estendeu a mão para o cumprimentar, ele aceitou.

“Catarina Beja.”

“Rui Alves.”

“É um regresso a casa, nesse caso?”

“Vou visitar alguns familiares a São João da Madeira.”

“Já lá passei. Os seus pais eram de lá?”

“Não. O meu é, era, do Barreiro. A minha mãe é que morava um pouco mais perto, em Cortenhal-da-Serra. Fica perto de Cabeçais de Baixo.”

Catarina sentiu o ar dentro da carruagem ficar mais pesado, como se as palavras que Rui acabara de pronunciar exercessem efeito na atmosfera. Sentiu uma dor no peito, tentou respirar fundo, mas o ar insistia em não circular.

“Está-se a sentir bem?”

Ela tentou acenar e sorrir, mas o resultado deve ter saído tão ao lado que Rui achou melhor chamar ajuda.

Levantando-se, apelou: “Por favor! Alguém aqui tem um comprimido? Esta senhora está-se a sentir mal!”

Senhora? Agora assim, sentia-se mal. O mais certo era ter mesmo cortado o cabo dos travões ao popó dos papás.

Apelando às suas últimas forças, Catarina começou a enfiar os papéis dentro da sua pasta.

“Calma”, disse Rui. “Onde é que vai com tanta pressa?”

“Preciso de ir à casa-de-banho.”

“Não é melhor alguém ir consigo?”

“Desde os três anos que vou à casa-de-banho sozinha. Eu fico bem.”

Catarina levantou-se e quase esbarrou com uma senhora armada com um blister contendo um último comprimido.

“Aqui tens, minha filha. Toma isto que te vai fazer bem.”

Catarina aceitou o comprimido – não tinha intenção de o tomar, mas era mais rápido aceitar do que recusar. “Obrigada.” Contornou a senhora, “Com licença.”, e seguiu pelo corredor até ao fim da carruagem.

Senhores passageiros, dentro de momentos iremos chegar à estação de Águeda. Estação de Águeda.”

Continuou até à casa de banho, pressionou o botão da porta automática e entrou. Lá dentro, pressionou o botão para trancar a porta. Aproximou-se da mini-janela, abriu-a e tentou respirar o ar de quase Águeda. Sentia-se aliviada por estar prestes a sair daquele comboio, o que não deixava de ser irónico, pois quanto mais tempo ali estivesse, mais tempo levaria para chegar ao seu destino.

Sentiu o comboio começar a abrandar. Abriu a torneira do lavatório, espalhou água pelo rosto, limpou-se e saiu. Misturando-se com a trupe que terminava ali a sua viagem, ou parte dela, seguiu até à saída da carruagem. Sentia que Rui estava a olhar na sua direcção, procurando-a. Nada contra o rapaz, mas não ficaria muito triste se não o voltasse a ver.


***


Assim que plantou o pé na plataforma da estação de Águeda, o lusco-fusco que embelezava a cidade deixou Catarina inquieta. Sendo aquele um ponto intermédio da sua viagem, não conseguia deixar de olhar para aquela luz, para aquela pureza, como um anúncio do que viria a seguir. Tal não podia estar mais longe da verdade, a não ser que encarasse aqueles tons de roxo e dourado e laranja como o prenúncio de uma escuridão prenhe.

Dali até São Pedro do Sul seria quase mais uma hora de viagem. Olhou para o relógio e percebeu que tinha menos de vinte minutos até à chegada do comboio. O outro a seguir só chegaria dali por mais de duas horas. Era verdade que queria adiar a sua chegada a Cabeçais tanto quanto possível, era verdade que precisava de pelo menos um par de cuecas, mas não estava com pachorra para ficar ali tanto tempo à espera da próxima composição. Aproveitou os dezoito minutos que lhe restavam para ir até ao café da estação comprar qualquer coisa para comer.

Os preços eram apelativos para quem preferia não comer nada e o aspecto dos produtos expostos não fazia nada para combater essa sensação. Os que tinham melhor aspecto deviam estar ali desde o dia anterior; os outros, talvez desde a abertura da loja, ainda no tempo da Outra Senhora. Durante a sua adolescência tivera de comer coisas bem piores para conseguir sobreviver, mas esse tempo já lá ia. Ou talvez não. Decidiu-se por um pacote de batatas fritas e um sumo e foi esperar o comboio.


***


Sónia estava à espera dela no apeadeiro de São Pedro do Sul. O espaço agora tinha a designação de estação, embora continuasse a ter o mesmo aspecto abandonado de sempre. Os bancos continuavam desconfortáveis e a zona comercial estava encerrada porque não havia quem conseguisse suportar as rendas elevadas. A localização também não ajudava em nada. Com Vouzela e Cabeçais de Baixo a cerca de onze quilómetros e Ventosa mesmo na periferia, quem não tinha carro não se safava.

Cumprimentaram-se com um tosco aperto de mão. Não gostavam de beijos. Era um gesto que lhes trazia más recordações. Além disso, fez questão de se lembrar, não eram amigas. Apenas tinham tido o azar de partilhar uma má experiência.

“Os meus pêsames”, disse Catarina.

“Obrigada.” Olhando para a bagagem que Catarina trazia consigo – ou para a ausência dela – Sónia perguntou, “Não trazes mais nada?”

“Não me posso demorar muito. Tenho um caso muito importante em mãos.”

Nada do que ela acabara de dizer era mentira, no entanto Sónia olhou para ela como se fosse.

“O funeral é só na segunda”, disse Sónia. “Tenho a mota lá fora. Anda.”

Dirigiram-se para a saída.

“Já sabes onde vais ficar?”

“Vou procurar um quarto, se calhar.”

“Não vais ter muita sorte com isso, mas tenta.”

Chegaram à mota.

“A tua casa continua no mesmo sítio.”

“Eu sei.”

Sónia colocou o seu capacete e entregou outro a Catarina. “Espero que esteja bom. Foi o primeiro que tive.”

Subiram para a mota.

“Agarra-te bem.”

Catarina abraçou Sónia com força e lá foram.

“Porque é que não queres ir para a tua casa?” gritou Sónia entre curvas.

“A minha casa já não é aqui.”

“Ficas na minha, nesse caso, pode ser?”

Não lhe apetecia muito, mas não tendo opção…

“Se não for incómodo.”

“Nenhum.”

Tão bem que se conheciam. Passados todos aqueles anos, sabiam sempre quando é que a outra estava a mentir.



3



Casa de Sónia Mariquito, Cabeçais de Baixo

Por volta das 21:00


Abdicando do protocolo da visita guiada, Sónia levou Catarina até à sala de estar.

“Põe-te à vontade. Volto já.”

Catarina pousou a bolsa e a pasta em cima do sofá e sentou-se. A casa de Sónia era mais parecida com a sua do que ela fazia questão de admitir: prática e desanimada. Não tinha muitos livros, mas os que tinha estavam vincados do uso. A um canto estava uma mesinha com um computador de secretária e um monitor que teria sido topo de gama por alturas de 1994. (Péssimo ano.) Por baixo: fios e mais fios. Não havia fotos expostas, o que não a surpreendia nada. Uma foto era um meio para contemplar o passado e Sónia tinha todos os motivos para não querer fazer isso.

Sónia abriu a porta da cozinha e de lá fugiu um mastim negro. Antes que tivesse tempo de fugir, já Catarina estava cheia de baba canídea no rosto.

“Fred! Aqui!”, chamou Sónia.

Fred olhou para a dona.

“Já!”

Fred largou Catarina e foi ter com a dona, lambuzando-a de alto a baixo.

“Pára!” Sónia riu-se e começou a afagar o cão. “Desculpa lá.”

“Não faz mal. Sempre é mais suave que a língua da minha gata.”

“Tens uma gata?”

Catarina acenou. “Gosto de cães também, mas não tenho vida para eles. Passo muito tempo fora.”

“Este aqui precisa de ir à rua. Importas-te que vá com ele e depois preparo qualquer coisa para comermos?”

“Não estou com muita fome, mas obrigada.”

“Vem connosco então. Pode ser que a caminhada te abra o apetite.”

Tinha dúvidas que isso acontecesse. Lembrou-se então da senhora do comboio que lhe oferecera o comprimido. Tal como então, aceitar e calar seria bem mais rápido do que dizer não.

“Pode ser que sim.”

Sónia pôs a trela em Fred e pegou nas chaves e no telemóvel.

“Ele costuma ser rápido. Espero que o teu apetite não se demore.”


***


A passeata foi feita num quase total silêncio, apenas interrompido por Sónia a perguntar qualquer coisa e Catarina a responder o mínimo essencial para poder voltar a estar calada. Estava a tentar não olhar para Fred a fazer número 2 quando Sónia lhe perguntou:

“Porque é que vieste?”

“Tu disseste-me para vir. Quase que me obrigaste até.”

“E foi só por isso que vieste? Por obrigação?”

“O que é que isso interessa? Não basta eu estar aqui?”

Sónia encolheu os ombros. “Suponho que sim.”

“Se estivesses no meu lugar, terias vindo?”

“Se estivesse no teu lugar, nunca teria ido sequer.”

O telemóvel de Sónia começou a tocar. Ela tirou-o da bolsa e olhou para o visor. Passou a trela de Fred para Catarina. “Segura-me aqui.”

Sónia afastou-se um pouco e, de costas para ela, atendeu.

Catarina olhou para a instalação de Fred e gritou para Sónia:

“Preciso de saco.”

Sónia tirou um rolo de sacos de plástico da bolsa e virou-se para o atirar. Nesse fugaz momento, Catarina viu que o rosto dela estava pálido como se estivesse a receber a notícia de que o pai tinha morrido outra vez. Catarina apanhou o rolo, retirou um saco, enfiou a mão tipo luva, colheu a obra ainda bem quente, deu meia volta, atou e lixo. Esperou que Sónia terminasse a chamada, aguentou Fred no sítio, e só depois foi ter com ela.

“Quem era?”

“Era o chefe da polícia. Disse que já tinha tentado ligar para mim antes, mas eu não devo ter ouvido.”

“Então?”

“O homem que matou o meu pai… foi encontrado morto esta manhã. O filho da mãe enforcou-se.”

Catarina pôs-lhe uma mão no ombro. Não tivera nenhum gesto de afecto para com Sónia aquando da morte do seu pai; porque é que estava a ter a propósito da morte do seu assassino? Não sabia e tão pouco importava.

“Anda. Vamos para casa.”

Sónia assentiu e estendeu a mão para pegar na trela de Fred. Catarina passou-lhe o testemunho.

Passados alguns metros, Sónia comentou:

“O meu pai não devia ter morrido. Não faz sentido.”

“É normal que penses assim. A morte quase nunca faz sentido.”

“Em alguns casos até faz. Sabes isso tão bem quanto eu.”

Por acaso até sabia, mas preferia não ser lembrada disso.

“Conta-me o que se passou”, pediu.

Sónia acenou sem adiantar nada.

Catarina não insistiu. Apesar de ter pressa para sair daquela terra, aquele não era o momento de apressar as coisas.

“Foi a típica noite de sexta”, começou Sónia passados alguns minutos. “Um serão bem regado na Adega Dias e depois foi picar o ponto com uma das meninas da Madame Matilde.”

Era estranho ouvi-la descrever a rotina do seu pai de forma tão casual. Em que momento da sua vida teria ela desistido de se importar com isso?

“Ainda é viva essa?”

Desde criança que ouvia falar na casa da Madame Matilde.

“É a filha. Tomou conta do negócio quando a mãe começou a perder o juízo.”

“E têm as duas o mesmo nome?”

“Na verdade, pelo que ouvi uma vez dizer, nenhuma delas se chama Matilde. É nome de profissão.”

“Foi lá que o teu pai…”

“Sim. Di—”

Fred deu um puxão na trela. Sónia segurou com firmeza.

“Quieto”, ordenou. Continuou: “Disseram que foi para um quarto com uma das meninas e que de repente um homem entrou lá na casa aos tiros à procura da mulher que tinha fugido.”

“Foi ele quem matou o teu pai?”

“Os relatos dizem que sim.”

“E a mulher que estava com ele?”

“Aí é que está. Quando a polícia chegou ao local identificou a mulher como Jacinta Queiroz, mas antes da polícia chegar, antes da confusão toda, houve quem comentasse ter ouvido o meu pai a identificar a mulher do homem que o matou. E não era Jacinta, era Lucília, ou Cecília. Ou Lúcia. Não sei.”

“Podem ter feito confusão. Além disso, tu própria o disseste, ele tinha passado o serão na adega.”

“E desde quando é que isso faria diferença? Já te esqueceste como é que o meu pai era? Achas que eram meia dúzia de atabafados que o iam baralhar?”

Não. Manuel Mariquito com os copos podia não conseguir andar a direito, ou sequer manter-se em pé, mas nunca confundia um rosto.

Estavam já à porta de casa quando Catarina resolveu perguntar: “Sabes se a polícia falou com a mulher do assassino?”

“Suponho que sim”, respondeu Sónia, ao mesmo tempo que abria a porta e soltava Fred da trela.

Entraram em casa. Sónia fechou a porta da rua e pendurou a bolsa no cabide. Seguiu para a cozinha, onde Fred aguardava pela sua chegada. Catarina acompanhou-a e sentou-se numa cadeira. Estava mais cansada do que pensava.

“E essa tal de Jacinta Queiroz?”

Sónia abriu a porta do armário por baixo do lava-loiça e duma embalagem gigante tirou alguns biscoitos para o cão.

“Não faço ideia. Mas eu falei com a Madame Matilde – ela é leitora da biblioteca – e—”

Catarina interrompeu-a. “Tu trabalhas lá?”

“Sim. Ela…”

“E ela vai à biblioteca?”

Sónia acenou, selou o saco dos biscoitos, fechou a porta do armário e foi sentar-se junto de Catarina. “Várias vezes até.”

“Fa…”

“Queres parar de me interromper?”

“Desculpa.” Não resistiu. “Vai fazer o quê?”

“Consultar livros de gestão, sobretudo. Ela leva a parte empresarial muito a sério.”

“Acredito que sim.”

“Continuando, falei com a Madame Matilde e ela disse que não tem nenhuma Jacinta a trabalhar para ela. Não tem nem nunca teve.”

“Como podes ter tanta certeza?”

Sónia olhou para os pés. A maioria das pessoas olhava para as mãos quando era apanhada em falso. Sónia sempre fora mais de olhar para os pés.

“A não ser que contes tudo o que sabes, não esperes que eu seja de grande ajuda.”

Sónia respirou fundo e olhou para cima, para o vazio do tecto branco com verdete nos cantos. Fred veio ter com ela e pousou o focinho no seu colo. Sónia olhou para baixo e afagou-o.

“Antes do meu pai ser morto, na quinta à noite, ouvi-o divagar sobre um grupo de mulheres que ele tinha visto a rondarem o cemitério da aldeia. Quando falei com a Madame Matilde, ela contou-me que houve vários clientes a perguntaram-lhe sobre algumas mulheres novas que por lá andavam.”

“Achas que eram as mesmas?”

“Eu sei que é coincidência a mais, mas acredito que sim.”

Catarina pensou no encontro casual que tivera lugar no comboio e concluiu que o mundo precisava de aumentar os seus graus de separação.

“Achas que elas tiveram alguma coisa a ver com a morte do teu pai?”

“O meu pai não foi morto por causa de um marido traído. Eu oiço as pessoas falar. Têm estado a acontecer coisas estranhas aqui em Cabeçais.”

“Isso para ti já não devia ser novidade.”

“Não me lembro de alguma vez ter chegado a este extremo. Pelo menos duas pessoas foram mortas de forma violenta, sem contar com o meu pai. Há quem fale em rituais, há quem fale em bruxarias...”

“As pessoas falam muita coisa sem saber. De qualquer forma, o que me estás a contar não chega para provar que os casos estão relacionados.”

“Então ajuda-me a descobrir a verdade.”

“Não é assim tão fácil. Não posso chegar aqui e meter-me numa investigação em curso.”

“Qual investigação, Catarina? Temos cinco polícias para mais de sessenta quilómetros de território. Há mais polícias numa avenida em Lisboa do que aqui no concelho todo.”

“Mesmo assim. Preciso de saber um pouco mais sobre essas tais mortes antes de decidir o que fazer.”

Sónia cruzou os braços. “E quando é que pensas fazer isso?”

“Amanhã. Agora preciso de descansar.”

“Não queres comer nada?”

“Tenho mais sono que fome.”

Sónia pareceu aceitar a sua justificação com alguma relutância. Levantou-se. “Vem. Eu mostro-te onde fica o teu quarto.”

Catarina seguiu-a. Apanhou as suas coisas do sofá e continuou.

“Obrigada”, disse Sónia.

“Não precisas de agradecer.”

Tarde demais.

À porta do quarto, Catarina lembrou-se de algo que Sónia lhe tinha dito.

“Desculpa não ter ficado.”

“Não vale a pena pensares nisso agora.” Fez uma pausa, como se fosse dizer algo importante, mas tudo o que disse foi: “Dorme bem.”


4



Catarina não conseguia dormir – nem bem, nem mal. Os horrores de noites distantes insistiam em visitá-la sempre que ameaçava passar para o lado de lá da consciência. Tinha regressado ao seu território – era normal que não a deixassem em paz.

Não sabia que horas eram, mas estava farta de estar ali. Não sabia a que ali se referia: se ao quarto, se à casa, se à terra. O estômago manifestou o seu descontentamento por ter sido tão negligenciado durante o dia. Acendeu a luz do candeeiro. Talvez Sónia tivesse restos de qualquer coisa no frigorífico. Levantou o lençol e o ar fresco de Cabeçais demonstrou que devia mesmo ter trazido um pijama. Burra.

Vestiu as calças e a camisola e saiu para o corredor. Estranhou o silêncio que se ouvia por toda a casa. Sónia passara pela mesma experiência que ela, mas além do desânimo provocado pela morte do pai, parecia ter ultrapassado essa situação.

Seria possível que, ao ter ficado para trás, no lugar que tanta dor lhe infligira, ela tivesse encontrado os meios de enfrentar e vencer os seus medos?

Catarina tirou um iogurte e uma maçã do frigorífico. Lavou a fruta e cortou-a em quartos. Fred apareceu de cauda a abanar.

“Cheirou-te a comida, foi?”

O abanar da cauda ficou mais intenso, a língua salivante pedia alimento. Catarina cortou um pedaço de maçã, descascou-o e segurou-o com a ponta dos dedos.

“Só este. Não há mais.”

Fred tirou-lhe o pedaço das mãos. Em menos de nada estava de novo à espera de mais.

Cedendo ao apelo canino, Catarina deu-lhe mais um pedaço.

“Já chega. Senão a tua dona dá cabo de mim.”

Fred ainda permaneceu ali uns minutos na esperança de que a sua sorte mudasse. Quando a maçã chegou ao fim, deu meia volta e foi-se embora.

Catarina agitou o iogurte com vigor antes de tirar a tampa e bebê-lo de pénalti. Arrotou para dentro. A casa estava tão em silêncio que temia acordar Sónia com o barulho.

Procurou um sítio onde deitar o lixo. Experimentou o lugar óbvio – debaixo do lava-loiça – e teve sorte. Maçã no lixo, iogurte nas embalagens. A parte curiosa era que não tinha visto nenhum ecoponto ali perto.

Antes de voltar para o quarto passou na casa de banho para o xixi da madrugada. Enquanto lavava as mãos, lembrou-se que nem escova de dentes trouxera. Labrega. Não querendo andar com bafo a fossa até voltar para casa, abriu o armário em busca de um elixir bocal. Havia dois à escolha, mas havia também uma farmácia – comprimidos para dormir, calmantes, anti-depressivos, inibidores de apetite, estimulantes. Momentos antes perguntara-se como é que Sónia conseguia estar bem. A verdade era que não estava, mas disfarçava muito bem – tal como ela junto dos colegas.

Voltou para o quarto, ligou o portátil e introduziu a pendrive de acesso à internet. Dispôs em cima da mesa as folhas que trouxera consigo do caso Simões e tentou retomar a análise que começara a fazer durante a viagem. Apesar da vontade, havia uma vozinha na sua mente que a impedia de se concentrar. Incapaz de continuar a ignorá-la, Catarina resolveu aceder à rede interna da PIN onde pesquisou por «Cabeçais de Baixo» e «morte».

A base de dados da PIN reunia entradas sobre todos os casos criminais em investigação, incluindo casos de outras agências. O acesso à base estava disponível para qualquer agente, existindo alguma restrições quanto ao nível de informação a que podiam aceder. Como agente da BCM era pouca a informação a que ela não tinha acesso. Infelizmente, alguma dessa informação só estava disponível nos Arquivos da PIN de Setúbal ou numa das outras dependências.

O motor de busca devolveu-lhe alguns resultados, só que era tudo referente a casos antigos. Pouco interessada no passado distante daquela terra, Catarina resumiu a sua busca a «Manuel Mariquito» e manteve «morte». O termo «morte», como seria de esperar, produziu várias entradas; «Manuel Mariquito»: zero.

Sem que desse por isso, começaram a surgir os primeiros raios de sol de Domingo. Tinha passado uma noite inteira sem encontrar nada e era bem capaz de arriscar que o resultado teria sido idêntico se estivesse na Suécia, com uma noite de seis meses.

Não encontrara nada porque não havia nada para encontrar, concluiu. O pai de Sónia tinha sido morto a tiro e o seu assassino cometera suicídio na prisão. Caso encerrado? À primeira vista diria que sim, mas as coisas nem sempre eram o que pareciam. O caso da morte do agente Simões que Hélder continuava a investigar, quase à revelia da Directora, era um bom exemplo disso. De qualquer modo, o protocolo entre agências ditava que todos os elementos referentes a uma investigação criminal fossem registados na base. Só conseguia pensar em duas razões para que essa informação ainda não estivesse disponível: ou era por ser fim de semana e a investigação ainda mal tinha começado, ou alguém queria manter o caso fora do escrutínio de estranhos.


***


“Estás com uma péssima cara”, comentou Sónia. “Dormiste bem?”

Catarina engoliu com esforço o pedaço de torrada que tinha na boca. Sempre eram mais uns segundos antes de admitir que, “Nem por isso.”

Sónia não perguntou porquê. Não era preciso.

“E sobre o que falámos ontem? Já decidiste o que vais fazer?”

“Ainda não.”

Sónia pousou a sua chávena e olhou-a nos olhos. “E quando é que vais decidir?”

Catarina não se deixou abalar pelo seu olhar intenso. Bebericou um pouco de café. “Preciso de saber um pouco mais sobre os outros casos que mencionaste. Sabes alguma coisa sobre eles?”

“Só o que oiço as pessoas falarem. Um batia na mulher, outro andava metido com crian—” Calou-se e olhou para a chávena. “Esse tipo de coisas.”

“Homens maus, portanto.”

“Pelo que dizem, sim.”

“Mas o teu pai não era assim.”

Não era uma pergunta, nem sequer uma acusação, mas o tom da resposta de Sónia continha uma certa indignação como se fosse justamente isso,que Catarina acabara de dizer.

“Não.”

Catarina saltou por cima do assunto e continuou. “Ontem à noite estive à procura na base da PIN e não encontrei quase nada sobre os tais outros casos, nem sequer sobre o teu pai.”

“Disseste quase?”

“Casos antigos, a maioria arquivados.”

“Resolvidos?”

“Não perdi tempo a ver a ver. Estou mais interessada nos casos actuais e sobre esses não há nada na base de dados a que eu tenho acesso.”

Sónia pareceu lembrar-se de algo e sorriu. “Isso quer dizer que a tua base não tem o que precisamos.”

Curiosa, Catarina mordeu o isco. “Qual é que me sugeres?”

“A da biblioteca de Cabeçais.”

“Pensava que as bibliotecas estavam fechadas ao domingo.”

“E estão. Mas desta quem tem a chave sou eu.”


***


Após um passeio rápido para Fred esticar as pernas e aliviar a tripa, Catarina e Sónia viajaram até à biblioteca de Cabeçais de Baixo. Quando partira de lá, Cabeçais de Baixo não tinha um multibanco, muito menos uma biblioteca e a casa de Sónia ficava na aldeia de Gume. Pelo que Sónia contou, Cabeçais agora tinha biblioteca e também multibanco. A casa dela continuava no mesmo sítio, só o nome da aldeia (não a aldeia, infelizmente) é que tinha sido extinto por decisão administrativa. Havia quem continuasse a falar da terra como se ela ainda existisse. Catarina tinha pena dessas pessoas. Só era pena apagar o nome não ser o mesmo que apagar o sítio ou a memória que evocava.

Sónia destrancou a porta do edifício e entrou. O alarme começou a tocar. “Deixa-me desligar o alarme primeiro.”

Catarina viu-a inserir o código e o alarme calou-se. De seguida, abriu o quadro eléctrico para ligar as luzes e fez-lhe sinal para entrar. Catarina entrou e fechou a porta.

A biblioteca ficava num pré-fabricado. Por fora parecia pequena; por dentro verificava-se que era pequena, mas estava muito bem aproveitada. Além das casas de banho para os utilizadores, a biblioteca tinha uma sala principal quebrada em várias secções e uma sala mais pequena, sem janelas, que cumpria as funções de espaço administrativo, sala de reuniões e vestiário. Foi para aí que foram – não fosse algum transeunte calhar a passar e vê-las lá dentro.

Sónia ligou o computador.

“O que é que estás a pensar pesquisar aí?”

“Disseste que não encontraste nada sobre os últimos acontecimentos, certo?”

Catarina acenou. “E achas que vais apanhar alguma coisa aí?”

“Sobre os acontecimentos, não. Sobre os intervenientes, sim.”

Catarina observou-a a inserir o seu nome de utilizador e senha numa janela de acesso.

“Essa base permite pesquisar o quê, ao certo?”

“Livros requisitados, livros pesquisados…”

“Endereços?”

Sónia acenou. “Queres começar por quem?”

“Começa pela mulher que estava com o teu pai.”

“Qual delas? A que estava mesmo ou a que diz ter estado?”

“Só sabes o nome de uma delas, não é?”

Sónia anuiu e inseriu «QUEIROZ, Jacinta» no campo de pesquisa. Obteve três resultados. Clicou no primeiro. Nada lhe chamou a atenção. Clicou no segundo.

“É este.”

“Como é que sabes?”

Sónia apontou para o número de telefone na ficha. “O indicativo não é daqui.”

“Tens a certeza?”

“Absoluta.”

Sónia abriu o Navegante e inseriu o número de telefone no campo de pesquisa do Encontra. O resultado não deixava margem para dúvidas.

“Cá está. Jacinta Queiroz, ou lá quem ela diz ser, vive em Cortenhal-da-Serra.”

Por breves momentos, Catarina lembrou-se do seu companheiro de viagem do dia anterior. “Isso é perto de Vouzela, certo?”

“Sim.” Sónia voltou à base de utilizadores. “A morada é daqui. Daqui, isto é, de Ventosa.”

“Por que raio é que ela iria dar uma morada falsa?”

“Não acho que a morada seja falsa. Deve tê-la usado só para se inscrever.” Explicou: “O regulamento só permite a inscrição a residentes, estudantes ou trabalhadores do concelho.”

“Tanta coisa só para vir cá requisitar livros? Não há biblioteca em Vouzela?”

“Há. Maior que esta até.”

Catarina reflectiu um pouco antes de continuar. “Tu disseste que o teu pai tinha visto um grupo de mulheres a rondar o cemitério na véspera de ser morto. Consegues fazer uma pesquisa na tua base por esse endereço?”

Sónia estalou os dedos e encarou o ecrã. “Acho que sim. Para?”

“Quero saber quem mais é que mora nessa casa.”


***


Duas idas à máquina do café e uma ida à casa de banho depois, Sónia lá conseguiu encontrar outra leitora que partilhava residência com Jacinta Queiroz: Cecília Oliveira.

“Eu sabia.”

“Quem é ela?”

“A mulher do assassino. Eu sabia que o nome dela havia de ser um dos que eu tinha dito.” Encarou-a. “Ainda achas que os casos não estão relacionados?”

“Eu acho é que está na hora de fazer uma visita a esta Jacinta.”

“E como é que vamos saber onde é que ela mora mesmo?”

“Vamos, não: vou. Eu vou visitá-la, tu vais para casa.” Tirou o telemóvel do bolso. “Só preciso de apontar o núme—”

Sónia desligou o monitor.

“O que estás a fazer?”

“Eu vou contigo.”

“Sónia, apesar de estarmos numa zona rural, isto não vai ser um passeio no campo. Se esta mulher estiver mesmo envolvida nisto, pode ser perigoso.”

“Não quero saber. Ou vamos as duas, ou não vamos.”



5



A caminho de Cortenhal-da-Serra

24 de Maio, por volta das 16:30


Conseguir a morada de Jacinta Queiroz através do número de telefone não fora tão simples como Catarina presumira. Tivera que ligar para Fernando, o seu chefe de equipa, inteirá-lo sobre os motivos de estar ali, escutar um sermão sobre protocolos e prometer ligar se fosse preciso auxílio, mas lá conseguira o número. Só que as dificuldades não ficaram por aí. Apesasr de Cortenhal-da-Serra ter menos de duzentos habitantes, mesmo tendo a morada de Jacinta, não estava a ser fácil descobrir-lhe o paradeiro.

Sónia parou a mota em frente a uma casa igual a tantas outras. Tirou o capacete e soltou o cabelo. “Tens a certeza que é aqui?”

Catarina ergueu a viseira do capacete e consultou o seu telemóvel. “O GPS confere.”

“Já é a terceira ou quarta vez que ele confere. Tens a certeza que isso funciona?”

“Devem ser interferências na rede.”

Cabeçais de Baixo e terras envolventes sempre tinham sido zonas muito ricas em eventos estranhos. Catarina ainda lembrava das lendas que a avó lhe contava e os fenómenos que tinha visto desde que entrara para a Brigada de Crimes Macabros levavam-na a pensar se seriam mesmo lendas ou relatos de acontecimentos verdadeiros.

“Deve ser.”

Catarina tirou o capacete e entregou-o a Sónia.

“Fica aqui. Eu vou lá dentro ver.”

Sónia aceitou o capacete. “Não te demores. Ainda nos falta visitar o resto da aldeia.


***


Catarina tocou a campainha e bateu à porta. Esperou. Não obtendo resposta, tentou de novo. Voltou a esperar. E voltou a tentar.

“Não está ninguém!”, gritou Sónia.

Catarina deu meia volta e fez-lhe sinal para estar calada. Devolvendo a sua atenção para a casa, contornou-a com cuidado e descobriu uma janela com uma cortina entreaberta. Através da abertura viu um quarto com uma cama individual, uma mesa-de-cabeceira, um roupeiro pequeno e uma cómoda – acomodações parcas. Tudo antigo, a avaliar pelos móveis – excepto o telefone sem fios em cima da mesa-de-cabeceira.

Procurou o número de Jacinta no telemóvel e marcou-o.

O telefone em cima da mesa-de-cabeceira começou a tocar e a vibrar. Desligou a chamada, guardou o telemóvel e avançou para a porta. Viu Sónia a aproximar-se e fez-lhe sinal para ficar. Sónia resmungou, mas ficou.

Desde a noite em que deixara aquele lugar que acreditava que os piores momentos da sua vida tinham ficado para trás. Aos treze anos já não acreditava em fadas e princesas ou sonhos de encantar. Acreditava na sua avó, que tudo sempre fizera para a proteger, mas que não conseguira proteger-se a si própria das maleitas do destino.

A instituição que a acolhera quando a avó deixara de poder tomar conta dela estava sobrelotada e tinha pessoal a menos, porém tinha comida e abrigo. Catarina esforçara-se por ficar lá, por se habituar, até começar a ouvir os rumores. Já tivera a sua dose de mãos indesejáveis em cima dela – não queria mais.

Nas ruas, aprendera a sobreviver pelos seus próprios meios. A sua vida institucional fora de curta duração, mas chegou para aprender os truques do ofício dos muitos pelintras que lá viviam. O arame no fio que trazia escondido ao pescoço fora-lhe oferecido na noite em que fugira dessa instituição e com ele tinha arrombado várias casas durante a sua permanência nas ruas.

A casa de Jacinta Queiroz era a primeira que arrombava em muitos anos; talvez isso explicasse a sensação de ter demorado mais tempo que o habitual.

Antes de pôr os pés na casa de Jacinta Queiroz, tudo o que Catarina sabia sobre ela eram as informações que constavam na ficha de leitora na Biblioteca de Cabeçais de Baixo, isto é, quase nada. Sabia que tinha trinta e três anos, que tinha uma relação com a esposa do homem que matara o pai de Sónia e soube, pelo cheiro a lixívia assim que entrou na casa, que tinha a mania das limpezas.

Tirou um par de luvas de borracha da bolsa, calçou-as, encheu-se de coragem e avançou, relatando para si mesma o que via.

“A casa é pequena e recente, por comparação com as outras da zona. Não deve ter mais de vinte anos. Tem um único quarto; pela roupa nas gavetas, trata-se de uma mulher, jovem. Trinta e poucos anos. Há indícios de mais pessoas terem estado cá recentemente. Vejo três chávenas com restos de chá na bancada da cozinha. A casa não tem televisão ou rádio, apenas alguns compêndios. Não parece ser uma leitora muito activa. Com o que é que se entretém? Parece não se importar de receber visitas, mas falta alma à casa. Quem mora aqui fá-lo mais por obrigação do que por vonta--”

“Encontraste alguma coisa?”

“Foda-se!”, gritou.

Catarina olhou para trás. Sónia estava boquiaberta como se a primeira vez que a ouvia dizer aquilo.

“Não te disse para esperares?” Respirou fundo. “O que vieste cá fazer?”

O som de um carro a aproximar-se respondeu à sua pergunta.

“Vinha-te avisar.”

“Tarde demais.” Pela janela viu um carro azul estacionar. “Esconde-te.”

Sónia olhou em volta. “E tu?”

“Eu vou lidar com a situação o melhor que conseguir.”

Sónia anuiu e seguiu para o quarto.

De novo sozinha, mas prestes a deixar de estar, Catarina cruzou os braços e esperou que a porta da rua abrisse. A ficha de leitora de Jacinta Queiroz não tinha foto, mas não era preciso ser investigadora de profissão para saber que ela não era o homem que acabara de entrar.

“Quem é você?” perguntou o recém-chegado. “O que faz aqui?”

Catarina observou a figura. Usava traje civil, mas o colarinho branco ao pescoço denunciava bem a raça a que pertencia. Sem mais demoras, puxou da sua identificação.

“Agente Catarina Beja, Polícia de Investigação Nacional.” Guardou a identificação. “E o senhor?”

“Lúcio. Padre Lúcio Andrade.”

“Mora aqui, senhor padre?

“Não. Eu…”

“Se não mora aqui, importa-se de me dizer o que faz aqui?”

“Podia fazer-lhe a mesma pergunta”, disse, seguro de si.

Catarina aproximou-se dele e obrigou-o a recuar. “Quer mesmo saber o que eu ando à procura?” Sem esperar que Lúcio respondesse, revelou: “De um assassino.”

“Um assassino?”

“O que me pode dizer sobre a mulher que mora nesta casa?”

“Pouca coisa. Eu mal a conheço.”

“Todas as pessoas que o senhor padre mal conhece costumam dar-lhe as chaves de casa? O que fazem as pessoas que o senhor padre conhece bem?” Observou-o com atenção. “Se calhar, eu devia antes falar consigo…”

“Eu só vim aqui buscar um livro emprestado.”

“Veio de propósito só por isso?”

“Faz-me falta o livro.”

“Nesse caso…” Catarina desviou-se e fez sinal para a estante. “Não lhe ocupo mais tempo.”

Lúcio aproximou-se da estante, pareceu procurar o título que lhe interessava e retirou-o.

“Deixe-me vê-lo”, ordenou Catarina.

Lúcio assim fez. Catarina pegou no livro: “Tratado de Plantas e Ervas Medicinais”. Tinha ar de ser mais velho que a sua avó. Folheou-o.

“Vai curar alguém?”

“Gosto de me manter informado.”

“Ouviu falar da morte ocorrida na casa da Madame Matilde?”

“Não tenho por hábito frequentar esses sítios, mas sim. Ouvi falar. Uma tragédia.”

“É só isso que tem para dizer?”

“É só isso que sei.”

Catarina devolveu-lhe o livro. Lúcio dirigiu-se para a porta da rua.

“Só mais uma coisa”, chamou Catarina.

Lúcio olhou para trás.

“Vamos deixar este pequeno encontro só entre nós, pode ser? Senão arrisca-se a ser preso por interferir numa investigação policial.”

Lúcio acenou. “Não se preocupe. Eu sei guardar segredos.”

Catarina não respondeu.

Assim que Lúcio saiu, Catarina dirigiu-se para a janela. Escutou Sónia a aproximar-se. Desta vez não a apanharia de surpresa.

“Mais valia teres contado tudo!” ouviu-a queixar-se.

“Cala-te um pouco.” Dirigiu-se para a janela e viu Lúcio entrar no carro. “Eu sei o que estou a fazer.”

“Sabes? Olha que não parece. Ele é o padre lá de Cabeçais. E se ele estiver envolvido com as tais mulheres de que te falei?”

O carro de Lúcio arrancou.

Catarina olhou para Sónia.

“Estou a contar que esteja. E estou a contar que ele vá já ter com elas.” Abriu a porta da rua e disse para Sónia: “Demoras-te ou fazes serão?”


***


O suspeito padre conduziu-as até às instalações de uma antiga fábrica de curtumes. O mau cheiro do passado era ideal para ajudar a disfarçar os podres do presente. Estacionadas a uma distância segura, viram Lúcio sair do seu carro e dirigir-se para o portão.

Catarina notou que não havia mais veículos por perto. Estaria mais alguém lá?

Lúcio puxou de um molho de chaves do bolso, teve uma breve atrapalhação até encontrar a chave certa, mas lá entrou. E o portão ficou aberto.

Catarina reparou num lance de escadas exteriores que dava acesso a um piso superior – talvez os escritórios. Com sorte, teriam vista para o pavilhão.

Sem querer perder tempo, Sónia desmontou da mota.

“Vamos.”

Catarina agarrou-a pelo braço. “Tem calma.”

“Primeiro queres que me despache, agora queres que me acalme. Vê se te decides!”

Catarina apontou para as escadas. “Por ali não. Lá para cima é melhor.”

Sónia lá concordou. Catarina saiu da mota. Correram para as escadas e subiram em passo rápido até à porta do escritório. Pela segunda vez no mesmo dia Catarina serviu-se dos seus talentos para entrar onde não devia.

A parte superior era um pequeno gabinete de decoração austera, com vista para o pavilhão. Lá em baixo, podiam ver cinco mulheres reunidas em torno de um pentagrama. Em cada ponta estava uma vela branca acesa. Viu o padre Lúcio encostado a uma parede, longe da zona do ritual; parecia pouco incomodado com o que via.

A janela guinchou um pouco quando Catarina fez deslizar uma das suas portas – apenas o suficiente para poder ouvir o que se passava. O pequeno gabinete foi preenchido com o cântico das bruxas, alheias ao facto de estarem a ser observados, ou incapazes de interromper o que estavam a fazer só para olhar.

Catarina não conseguia perceber todas as palavras que as mulheres entoavam, mas das poucas que reconhecia, diria que era latim, talvez uma variante de tebano.

Bruxas em Cabeçais de Baixo: era algo que lhe causava tanto espanto como o à-vontade do padre naquelas circunstâncias.

Sónia interpelou-a. “Consegues perce--?”

“Sshh.”

Sónia calou-se. Catarina abanou a cabeça, como que dizendo: não fales e não, não percebia. Lembrou-se da conversa que tivera com Fernando. A avaliar pelo desenrolar dos acontecimentos começava a suspeitar que era bem capaz de vir a precisar de ajuda.

Só receava que a ajuda não chegasse a tempo.

O tom dos cânticos aumentou de fervor. As cinco mulheres ergueram as mãos. Uma pequena fissura surgiu no espaço, mesmo no centro do pentagrama, e de lá emergiu uma densa nuvem negra. As cinco mulheres interromperam o ritual de repente. Os seus semblantes espantados declaravam que aquilo não devia acontecer.

Uma das mulheres recuperou do choque e começou a gesticular. Pequenos relâmpagos irromperam da fissura e envolveram a nuvem. As outras quatro depressa a acompanharam, tentando forçar a nuvem de volta à fissura.

A nuvem debateu-se e espasmou-se, como se tivesse vontade própria. Como se não quisesse ser devolvida ao sítio de onde vinha.

As bruxas intensificaram o ataque. A fissura aumentou de diâmetro e tentou a sugar a nuvem. Incapaz de resistir à força de atracção do vórtice, a nuvem absorveu os relâmpagos e devolveu-os num ataque concentrado que encerrou a fissura e mergulhou o pavilhão numa escuridão quase palpável.

Do seu ponto de observação, Catarina distinguia as silhuetas das mulheres e pouco mais.

De repente, Sónia deixou soltar um pequeno grito.

Catarina virou-se para trás, pronta a repreendê-la, mas a expressão de pânico no rosto de Sónia fê-la mudar de ideias. Tornou a olhar pela janela e viu uma figura translúcida alta, magra e com o mesmo aspecto que ela devia ter quando a rua era a sua casa. A figura pairava no ar, ainda sem rosto definido, e com a zona inferior do corpo ainda em estado semi-gasoso.

Sem ceder ao medo, Catarina fechou a janela, esperando que isso servisse para atrasar a figura. Como se o vidro ali não estivesse, a figura atravessou o vidro e agarrou-a pelo braço.

Catarina sentiu-se como se estivesse a pôr a mão numa chama sem se queimar. Não querendo descobrir até quando conseguia ficar sem se aleijar, tirou uma ponta-e-mola do bolso e espetou-a no rosto da figura. Ficou sem perceber se a surpresa no rosto da figura era por ter sido esfaqueada ou por isso ser sequer possível, mas ficou aliviada por conseguir fazê-la desaparecer.

Apanhou o canivete do chão. Sónia estava petrificada a um canto. Deu-lhe uma chapada para a acordar e ajudou-a a levantar-se. Não havia tempo a perder. Tinha de descobrir com o que é que estava a lidar. Ajudou Sónia a descer e dirigiram-se até ao lugar onde a mota ficara escondida.

“Consegues levar a mota?”

Sónia estava ofegante. “Dá-me cinco minutos.”

“Nós não temos cinco minutos.”

“Dois, então.”

Catarina deu-lhe esse tempo, embora contrariada.

“O que é que fizeste para aquilo desaparecer?”

Catarina puxou do seu canivete e fez sair a lâmina. “Prata. Os espíritos detestam prata.”

“Aquilo era um espírito?”

Catarina notou o ar à sua volta começar a ondular. Acabara-se o descanso. A figura começava a ressurgir perante os seus olhos. “Não sei o que era, mas sei que não gostou da prata.”

Sónia enfiou o capacete e subiu para a mota. Catarina imitou-a e agarrou-se a ela. Ao arrancar trespassaram a figura ainda em estado semi-etéreo.

Com sorte, talvez conseguissem chegar vivas ao dia seguinte.



6



Cada curva feita contribuía para diminuir as esperanças que Catarina tinha de chegarem vivas ao seu destino. Mesmo nas rectas, Sónia parecia ter sérias dificuldades em manter o equilíbrio. A mota oscilava como se gigantes à beira da estrada estivessem empenhados em derrubá-la com a força dos seus sopros.

“É melhor pararmos!”, gritou.

Sónia não fez caso. Fosse por não ter ouvido, ou por não querer responder, a razão não era importante. Farta de ver a morte a cada curva, Catarina beliscou-a.

“Pára a mota!”, gritou.

Sónia encostou à berma, parou e saiu da mota. “O que é que foi? Porque é que páramos?”

Catarina tirou o seu capacete e saiu da mota.

“Tu não estás bem, Sónia.”

“Eu?”

Catarina aproximou-se dela e ajudou-a a tirar o capacete. Sónia tinha um ar cansado e pálido, como se tivesse adoecido de repente.

“Como é que te sentes?”

Sónia encolheu os ombros. “Normal.”

“Ninguém diria. Parece que vens a conduzir com os copos.”

Eu não bebo.”

Catarina absteve-se de comentar. Sónia era filha de um alcóolico. Não seria invulgar também gostar da pinga. O álcool afectava o equilíbrio e a coordenação motora. O único senão nessa teoria era o facto de terem estado sempre juntas. Não sendo essa a explicação, qual seria?

Lembrou-se: a figura!

Tinha de ser isso. Lembrou-se da sensação de calor que sentira ao ser tocada. Teria Sónia sido tocada também?

“Mostra-me os braços.”

“Para?”

“Faz-me só esse favor.”

Sónia arregaçou as mangas. O pulso direito estava limpo, mas o esquerdo tinha um estranho caractere, semelhantes a um M, dentro de um círculo.


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