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O MAL HUMANO


CONTENÇÃO

TEMPORADA 0: EPISÓDIO 3






UMA SÉRIE LITERÁRIA DE

Joel G. Gomes




Edição de Autor

2017




UMA CHAMADA A MEIO DA NOITE


Para pagar uma dívida antiga, a agente Catarina Beja, da Brigada de Crimes Macabros, é obrigada a regressar à sua aldeia natal, perto de Cabeçais de Baixo, para investigar a morte do pai de uma amiga de infância.


TRAZ O PASSADO DE VOLTA


Catarina percebe que essa morte é apenas uma de muitas que têm acontecido ao longo das últimas semanas. À medida que a sua investigação avança, é forçada a relembrar os eventos que a levaram a fugir daquele Inferno disfarçado de Paraíso.


E TODOS OS SEUS HORRORES…


Ao mesmo tempo que descobre que nem todos tiveram a mesma sorte que ela, Catarina é confrontada com uma realidade oculta no seio da comunidade. Uma tradição misteriosa que parece de alguma forma ligada ao seu passado…



Contenção, de Joel G. Gomes

Série: O Mal Humano (Temporada 0: Episódio 3)

Edição de Autor


http://joelggomes.com/o-mal-humano-0-3-contencao/


© 2017 Joel G. Gomes


Texto e capa por Joel G. Gomes






Para a Elsa,

e os seus mundos imaginários.




Índice de conteúdos



O LIVRO É TEU, MAS A HISTÓRIA É MINHA

VIAGEM A TERRAS QUE NÃO EXISTEM

1

2

3

4

5

6

7

AGRADECIMENTO

SOBRE O AUTOR

O livro é teu, mas a história é minha



Esta história (como qualquer outra) deu-me trabalho a escrever. Foi preciso pesquisa, tempo e paciência para que encontrasse as palavras adequadas. Mesmo que não aprecies o resultado final, valoriza esse esforço comentando esta história, partilhando-a e incentivando outros a comentar. Da minha parte fica um agradecimento e uma promessa de poder retribuir com mais histórias, além das que podes descobrir em www.joelggomes.com e em várias plataformas.

(E se por acaso não obtiveste este livro da maneira mais lícita, que isso não seja razão para não dares o teu comentário.)

viagem a terras que não existem



O episódio anterior desta série terminava com uma perseguição a alta-velocidade, numa noite de tempestade, pelas curvas e contracurvas da Serra do Núncio. É provável que este local não vos diga nada, porque é um sítio que não existe a não ser neste universo. Na minha mente fica em Portugal, na zona de Caldas da Rainha, mas não vale a pena irem lá procurar porque não o irão encontrar.

Neste episódio são apresentadas mais duas terras imaginadas – Cabeçais de Baixo e Cortenhal-da-Serra, na zona de São Pedro do Sul e Ventosa –, mas a sua criação não é obra da minha imaginação e sim da minha amiga e autora Elsa Leal, na história Condutores de Almas.

Essa história, além de introduzir um universo mágico com bastante potencial, apresenta-nos a um grupo de irmãs, praticantes de bruxaria, e a toda uma Tradição familiar de práticas mágicas que data do tempo da Inquisição. É a história de uma maldição, de um desejo de vingança insaciável. Mas é também uma história de violência doméstica, de obediência cega, de crença inabalável.

Tal como em episódios anteriores, os eventos que aqui apresento acompanharão a protagonista desta história um pouco por toda a série. A grande diferença neste caso é que esta história e, por consequência, todo este universo passa a estar ligado ao universo mágico onde decorre a história de Elsa Leal.

Apesar de encerrar a história principal, a autora deixa alguns elementos para explorar, nomeadamente a existência de outras famílias, com outros propósitos dentro da tal Tradição, bem como da existência de grupos semelhantes noutros locais. Resolvi aproveitar isso, pois claro.

Em Condutores de Almas ocorre uma morte que não devia ocorrer (no sentido em que viola as regras da Tradição, não no sentido em que é errado matar) e isso traz consequências. Com a permissão da autora, eu resolvi explorar essas consequências e usá-las como pano de fundo para a apresentação da minha personagem, Catarina Beja.

A Catarina Beja é natural de Cabeçais de Baixo. Nasceu e passou parte da infância lá, até que foi obrigada a abandonar a terra, com o desejo de não mais voltar. Para ela é um regresso a um sítio que nunca foi um lar; para quem lê, conheça já ou não Cabeçais de Baixo, é o início de uma viagem ao passado de uma das personagens mais relevantes desta série. Espero que gostem.



1



Vale da Amoreira, Moita

23 de Maio de 2009, madrugada


Após mais uma tentativa falhada de verter o café para a chávena sem entornar, Catarina Beja concluiu que mais valia desistir. Eram três da manhã, hora a que costumava – devia, aliás, estar – a dormir. Ao invés, estava na cozinha, a decidir se bebia um café para se acalmar, ou se ia para a cama fingir que dormia. Conhecia-se bem demais para saber que a segunda opção nem valia a pena considerar. Sobretudo depois do telefonema que recebera uma hora antes.

A chamada viera de um número anónimo e Catarina hesitara em atender. Além dos seus colegas de brigada, que mais depressa ligariam para o seu telemóvel, não sabia quem poderia estar a ligar. Tinha visitado a avó naquela tarde e estava tudo bem com ela. Dentro do que era possível.Vendedores não iam ligar àquela hora – em princípio. De qualquer modo, atendera. E depressa se arrependera.

“Sim?” Tentou soar tão alerta quanto possível, mas acabou por soltar um bocejo.

“Catarina, daqui fala a Sónia, Sónia Mariquito.”

O nome atingiu-a como um murro no estômago. Sónia Mariquito era um nome que fazia parte de um passado que Catarina se esforçava por esquecer. De muitas maneiras, teria preferido o tal murro.

“Não sei se te lembras…”

Como podia ela não se lembrar? O difícil era esquecer.

“Onde é que arranjaste o meu número?”

Era isso que mais importava saber. Não porque resolvera pôr fim a um silêncio de quase duas décadas. Às duas da manhã, ainda por cima.

Ela e Sónia eram naturais de Cabeçais de Baixo, uma pequena aldeia perto de Ventosa. A sua infância lá ficara marcada pela dor e pela vergonha. Sónia sofrera com ela, partilharam dos mesmos traumas, mas isso não as aproximara. Nem todas as experiências partilhadas se transformavam em amizades para a vida. Na verdade, conhecer alguém que passara pelo mesmo só tornava difícil esquecer.

“A tua avó deu-mo.”

“Tu falaste com a minha avó?”

Não sabia se estava mais chateada por Sónia ter ido incomodar a sua avó ou por ninguém no centro de apoio ter mencionado que a avó tivera visitas.

“Não. Ela ligou para mim uma vez.”

A sua avó ligara para ela? Só podia estar a brincar.

“A minha avó está senil. Custa-me a crer que tenha ligado para ti.”

“Quando falei com ela pareceu-me normal. De qualquer forma, isto foi há quase dois anos. Nunca tinha precisado de te ligar antes.”

“E precisaste hoje às duas da manhã? Porquê?”

“O meu pai morreu.”

Catarina respirou fundo e pôs a animosidade de lado. Apesar dos anos passados, lembrava-se bem do Sr. Mariquito. Freguês ocasional das tascas da aldeia (gentilmente referido como o “entornado”, o “pipas” ou o “seca-adegas”), a sua assiduidade aumentara de forma exponencial depois da mãe de Sónia ter morrido, era ela ainda criança. Manuel Mariquito não era mau pai, porém estava longe de ser um pai exemplar. A morte da esposa deixara-o com um vazio no coração que a filha não conseguia preencher, mesmo que tentasse. Mas isso não significava que vivessem afastados. Sónia podia ter muitos defeitos, tal como o pai, mas adoravam-se mutuamente.

Apesar de ter todas as razões do mundo para culpar o pai por não ter feito nada para impedir o que lhe acontecera, Sónia nunca lhe apontara o dedo. Havia monstros que só o amor não conseguia vencer. Ambas sabiam isso melhor que ninguém.

“Os meus pêsames. Quando é que foi isso?”

“Esta noite, por volta da meia-noite. A polícia acabou de sair daqui.”

“A polícia?” De repente, a hora da chamada começou a fazer mais sentido. “Como é que teu pai morreu, ao certo?”

“Se não te importas, prefiro contar-te tudo frente a frente quando aqui chegares.”

Catarina teve de repetir para si mesma o que acabara de ouvir, só para ter a certeza.

“Nem penses, Sónia. Lamento muito que o teu pai tenha morrido, a sério que lamento, mas eu jurei para mim mesma que não voltaria a pôr os pés aí.”

Sónia ficou alguns momentos sem responder. Catarina queria terminar a chamada, desligar o telefone da ficha, colocar o telemóvel no silêncio, esquecer que o seu sono tinha sido interrompido por um pesadelo real e tentar regressar a Vale de Lençóis, com a esperança de não sofrer ataques por parte do seu subconsciente. Segundos passaram, poucos segundos que àquela hora pareciam muitos. Eram segundos de antecipação, uma antecipação para algo mau. Era assim quando tinha treze anos e aquela chamada estava a parecer cada vez mais um regresso ao passado.

“Tu estás em dívida”, disse Sónia. Quase que podia vê-la de indicador em riste, acusando-a.

“Não sei do que é que estás a falar.”

“Não finjas que não te lembras. Estávamos lá as duas.”

Catarina aproveitou a deixa para tentar inverter o ônus da responsabilidade.

“Sim, estávamos as duas lá. O que faz com que sejamos as duas responsáveis.”

“Foi por isso que fugiste? Não quiseste assumir a tua responsabilidade, não foi? Pois bem, alguém teve de assumir.”

Catarina ficou sem palavras. Sentia-se desorientada como há muito não lhe acontecia.

“Porquê?”, perguntou, por fim.

“Porque tu e a tua avó tinham desaparecido e eu não achei que valesse a pena falar de ti.”

“É por isso que dizes que estou em dívida para contigo?”

“Eu não digo, tu estás em dívida.”

“Ao certo, o que é que queres que eu vá aí fazer?”

“Conto tudo assim que chegares.”

“Não. Dívidas ou não, se eu for aí quero saber de antemão ao que vou.”

A resposta de Sónia veio mais depressa do que ela estava à espera.

“O meu pai foi morto porque descobriu algo que não devia.”

“E queres que eu faça o quê?”

“O teu nome saiu nas notícias aqui há tempos. Sei que és agente da PIN. Quero que me ajudes a investigar o que aconteceu.”

“Eu investigo falsificações de documentos e obras de arte, não homicídios.”

“És a única agente que eu conheço. E a única em quem posso confiar.”

A chamada ficara por aí, mais conversa menos conversa. Catarina não dissera nem sim nem não, e agora estava arrependida de não ter tido a coragem (e a honestidade) de recusar. Sentia-se roída de ansiedade pela iminência de voltar a um sítio onde jurara nunca mais voltar.

Mas tinha de ir. Era o mínimo que podia fazer para retribuir o gesto que Sónia fizera por ela durante todos aqueles anos. As memórias e os traumas do passado teriam de ficar para depois.




2



A bordo do Inter-Regional para Viseu

23 de Maio de 2009, por volta das 19:00


Catarina pousou a caneta e olhou para o que tinha acabado de escrever. Lamentou a falta de uma base de apoio decente para colocar as folhas. A oscilação do comboio estragava a sua bela caligrafia; ainda assim, conseguia ter uma letra mais legível que a de Hélder, ou mesmo a de Sara. Doutores…

Dentro de momentos o comboio chegaria ao Entroncamento. Alguns dos passageiros começavam a levantar-se e a preparar-se para o transbordo. Catarina aproveitou para se levantar também e esticar um pouco as pernas. Ainda tinha uns bons quilómetros de viagem até São Pedro do Sul. Havia outras maneiras, todas elas mais rápidas e económicas, de chegar ao seu destino. Não podendo evitar a viagem, fizera o que estava ao seu alcance para adiar a sua chegada o mais possível, sem parecer que o estava a fazer.

O comboio parou. O corredor ficou entupido com passageiros a tentar sair, outros a tentar entrar. Ela olhou para o depósito das malas para ter a certeza de que ninguém levava a sua por engano, apenas para se lembrar que trazia apenas a sua pasta e nada mais. Ela que tinha uma mala de viagem sempre pronta, levava só a roupa que trazia vestida e a mala com o portátil e alguns papéis. Era o quanto ela queria não ir.

Só depois do comboio ter iniciado viagem é que se lembrara que iria fazer-lhe falta pelo menos uma muda de roupa interior. O resto ainda se aguentava. Talvez em Águeda conseguisse dar um salto a uma loja do chinês, só para desenrascar. Era o que dava não dormir nada de jeito. Sentiu uma certa inveja do passageiro que dormia no banco da frente. Quem lhe dera ter a consciência tão tranquila.

Sentiu o comboio retomar a marcha. Sentou-se e olhou para a cópia em tamanho reduzido de um quadro encontrado na casa do falecido inspector Simões. Com mais de seis meses passados, o caso estava oficialmente arquivado, mas Hélder não acatara essa decisão e pedira-lhe que avaliasse a origem dessa obra. Catarina releu o que escrevera e continuou:

«Um entroncamento na noite; a paisagem circundante revela uma mescla de moderno e bucólico; em destaque dois v—»

“Está no meu lugar.”

A interrupção fê-la prolongar o V para lá do limite da folha. Olhou para o lado e viu um jovem de fato escuro, mala a tiracolo, e ar de enterro. Tinha ar de quem havia matado os pais.

“Perdão?”

“Está no meu lugar.”

“A sério?” Procurou o bilhete na bolsa e consultou o número do assento: 114. Estava certo.

“O meu lugar é o 114.”

“O 114 é o que fica no lado do corredor. Onde você está é o 116.”

Você. Ele não devia ter assim tantos anos a menos que ela, mas aquele comentário fê-la sentir-se mais velha que a sua avó.

“Tem razão.” Não valia a pena continuar a discussão. Alguém que embirrava com uma merdinha daquelas já tinha uma vida triste o suficiente. Mesmo que não tivesse matado os pais. “O erro foi meu.”

Enfiou os papéis na pasta, pegou na bolsa e levantou-se. O jovem sentou-se à janela, nem obrigado nem nada, tirou um livro da mala e colocou-a no chão.

Catarina sentou-se no seu novo lugar e retirou as folhas da pasta para retomar a sua pesquisa. Talvez a mudança de ares a inspirasse.

Mais uma vez, olhou para a imagem que Hélder lhe tinha pedido para analisar e continuou a tomar notas.

«O estilo apresenta traços de Surrealismo (os veículos não têm rodas e sim asas), com algumas notas de Ilusionismo. As cores usadas e o jogo de luzes fazem lembrar Bosch. A via principal do entroncamento está desviada à esquerda. Os elementos da imagem não estão centrados.»

O inspector Simões tinha morrido num acidente de viação. Por se tratar de um agente da lei, o seu veículo fora analisado diversas vezes, sem que em alguma vez tivessem sido descobertos quaisquer indícios de sabotagem. Na semana passada, Hélder encontrara aquela imagem e concluíra que ela representava a morte do seu colega e amigo.

Era inegável que havia semelhanças, podia até representar o que tinha acontecido (menos a parte dos carros terem asas), mas tinha dúvidas que aquela imagem pudesse explicar qualquer mistério que existisse em torno da morte do inspector Simões.

Passado algum tempo, voltou a ser interrompida.

“Peço desculpa por há pouco.”

Foi só graças à educação que a avó lhe deu que Catarina olhou para o vizinho do lado. Caso contrário, teria feito ouvidos de mercador.

“Não tem problema”, respondeu.

Tornou a virar a sua atenção para os papéis que tinha consigo e conseguiu estar dois minutos seguidos a observar a imagem, em busca de alguma pista e, quando por fim a descobriu:

“Foi você que pintou isso?”

Outra vez o você? Tudo bem que já não tinha o mesmo tom irritante de antes, mas mesmo assim…

Sem desviar os olhos da folha onde ia tomando algumas notas, disse: “Não.”

Curto e grosso. Sem querer ser rude, era a melhor maneira de terminar a conversa.

“A minha mãe costumava pintar.”

Quase que disse antes de matar? Conteve-se. Suspirou para dentro e continuou a escrever.

“Disse costumava? Perdeu o interesse?”

“Não. Perdeu a vida.”

Catarina engasgou-se, teve um ataque de tosse, recuperou a postura, olhou para ele e disse: “Os meus pêsames.” Depois, não porque tivesse especial interesse, mas porque sabia o que era não ter mãe, perguntou: “Morreu de quê, se não for indiscrição?”

“Acidente de viação. Ela e o meu pai.”

Parou de olhar para ele como um parricida e viu alguém não muito diferente dela. A sua voz soava vazia – a voz de alguém ainda no início da vida que de um momento para o outro ficava sem caminho. Dizer-lhe que ia tudo correr bem não seria uma mentira, mas também não seria uma verdade – um tiro escuro, apenas isso.

“Lamento muito.” Não havia assim tantas alternativas. “Foi há muito tempo?”

“Faz hoje duas semanas.”

“Resolveu mudar um pouco de ares?”

“De que é que adianta irmos até ao fim do mundo se o nosso passado nunca fica para trás?”

Catarina identificou-se tanto com aquelas palavras que quase sentiu que estava a ter um diálogo com ela própria. Estendeu a mão para o cumprimentar, ele aceitou.


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