Excerpt for Fragmentos: Dércio by , available in its entirety at Smashwords


INTERSECÇÕES

FRAGMENTOS 0.5 - DÉRCIO




UMA SÉRIE LITERÁRIA DE

João Dias Martins



Edição de Autor

2017




Dércio participa num jogo de cartas e a coisa não está a correr bem para o seu lado. Até aí, nada de novo. Ele não está ali por ser bom jogador; está ali por não ter outra opção. E quando assim é, será assim tão surpreendente que acabe a partida ainda mais encurralado?

Quando a única hipótese que lhe resta implica quebrar uma promessa feita ao seu irmão, Dércio vê-se obrigado a aceitar. Afinal de contas, Laurénio já o perdoou tantas vezes… Mais uma não fará grande diferença. Ou fará?




Fragmentos: Dércio, de João Dias Martins

Série: Intersecções (Temporada 0, Episódio 5)

Edição de Autor, 2017


https://pessoaqueescreve.wordpress.com/interseccoes/temporada0/e5


© 2017 Joel G. Gomes


Texto: João Dias Martins

Capa: Joel G. Gomes



O LIVRO É TEU, MAS A HISTÓRIA É MINHA



Esta história (como qualquer outra) deu-me trabalho a escrever. Foi preciso pesquisa, tempo e paciência para que encontrasse as palavras adequadas. Mesmo que não aprecies o resultado final, valoriza esse esforço comentando esta história, partilhando-a e incentivando outros a comentar. Da minha parte fica um agradecimento e uma promessa de poder retribuir com mais histórias, além das que podes descobrir em www.pessoaqueescreve.wordpress.com e em várias plataformas.

(E se por acaso não obtiveste este livro da maneira mais lícita, que isso não seja razão para não dares o teu comentário.)




ÍNDICE



1

2

3

4

AGRADECIMENTO

SOBRE O AUTOR



1



Bairro do Futuro, Vale da Amoreira

10 de Janeiro de 2009, por volta das 23h00


Estavam todos a olhar para ele. À espera que ele tomasse uma decisão. Dércio olhou para as cartas que tinha na mão, para as cartas que estavam em cima da mesa e para a pilha de fichas que, por milagre, não tombava. Fez um esforço para se lembrar das regras que lhe tinham sido explicadas no início do jogo. Tentou adivinhar que cartas teriam os seus oponentes. Até tentou (como se isso adiantasse grande coisa naquela fase do campeonato) perceber por que razão aceitara participar num jogo no qual não tinha qualquer experiência.

E, claro, lembrou-se do dinheiro. Por muito que ele achasse e quisesse acreditar que a sua vida tinha mudado, que ele tinha mudado, continuava tudo na mesma. Por muitas razões e justificações que pudesse arranjar, era sempre pelo dinheiro que ele fazia asneiras daquelas.

O Velho aclarou a garganta. Não era catarro (embora fumasse três maços por dia), era um aviso. E Dércio entendeu sem necessidade de mais explicações: tinha de jogar ou passar.

«Passo», disse.

«Não podes passar», disse o Careca.

«Tens de jogar esta», disse o Fininho, cuja alcunha, ao contrário dos comparsas, nada tinha a ver com o aspecto físico.

Dércio notou uma troca de olhares entre os dois jogadores. Sabia que estava a ser tomado por parvo e a culpa disso era apenas e só dele. Se ao menos tivesse prestado atenção às regras… Não que isso fosse adiantar muito, pois tinha a clara sensação de que as regras explicadas não eram aquelas pelas quais estavam a jogar.

Acontecera tudo tão rápido. Ou, talvez não exactamente rápido, talvez inevitável fosse o melhor termo. Ele precisava de dinheiro com urgência e tinha vindo pedir um empréstimo a quem ele sabia que tinha para emprestar e que não faria perguntas. Como o santinho do seu irmão. Por outro lado, o seu irmão não lhe partiria as pontas dos dedos à martelada se por acaso não lhe pagasse dentro do tempo acordado.

«Hoje», disse o Velho, já muito para lá do aviso normal.

Dércio tornou a olhar para as cartas, escolheu jogar a Dama de Paus e preparou-se para o pior.

O Velho cerrou os lábios e jogou um 7 de Espadas, o Careca um Ás de Ouros, o Fininho um Rei de Copas.

Ninguém se mexeu para recolher as fichas.

«É teu», disse o Velho.

Dércio olhou para ele, olhou para as cartas. Entendia o que ele estava a dizer, mas não percebia como era possível.

«Ganhei?», perguntou, cada vez mais convencido de que estava a ser engordado antes de ir ao forno.

«Dois mil paus», disse o Careca. «Mais coisa, menos coisa. São teus.»

Dércio não se mexeu para apanhar o prémio, embora a sua vontade fosse fazer isso e zarpar dali para fora. Mas por muito tentado que estivesse — e estava — continuava a tentar perceber como é que ganhara aquela vaza.

«Queres o dinheiro ou não?», perguntou o Fininho.

Antes que Dércio pensasse em responder, o Velho fê-lo por ele.

«Talvez o nosso amigo não esteja satisfeito com o resultado.» Olhou para Dércio até este olhar para ele. «Não te chega isto? Queres mais, é?»

Dércio não precisava de fazer contas para saber que só metade daquele dinheiro já chegava para resolver os seus problemas e ainda sobrava. Era melhor ficar por ali.

«N-não», apressou-se a dizer. «Assim está óptimo.»

Quando ia para jogar as mãos ao bolo, sentiu umas manápulas fortes e bojudas agarrarem-lhe o pulso com firmeza. Era o Fininho.

«Nós queremos a desforra», disse o Velho.

Dércio olhou para os três tubarões sedentos de sangue: o seu sangue.

«Não tenho mais nada para apostar», disse Dércio.

O Velho apontou para o bolo. «Disparate. Tens isso tudo para apostar.»

Não, o que ele tinha era um azar do cacete.

Olhou para o Velho. «Não me obrigue a jogar mais. Por favor.» Como se pedir fizesse grande efeito.

«Por favor...», repetiu o Fininho.

Os três riram-se. O Fininho puxou de uma pistola e encostou o cano ao peito de Dércio.

De repente, aquele dinheiro todo, aquele dinheiro que tanto jeito lhe faria, deixou de ter qualquer importância. Tudo o que ele queria era desaparecer para um sítio bem longe dali, para um tempo em que tudo estivesse bem na sua vida — se é que tal tempo alguma vez existira.

«Vá lá, vá lá», disse o Velho. «Não é preciso isso. Somos todos pessoas civilizadas, não é verdade?»

Dércio estava demasiado acagaçado para conseguir responder a qualquer pergunta, por mais simples que fosse.

«Façamos assim...», continuou o Velho, puxando de um maço de notas de 500€, tão lisas e perfeitas que pareciam acabadas de sair da fábrica. «Novo jogo.» Separou quatro notas para cada um dos três e colocou-as em cima da mesa. «Cada um põe dois mil. Parece-te bem assim?»

O Fininho pressionou o cano da arma com força contra o seu abdómen. Dércio acenou.

«Devias ficar contente», disse o Careca. «Em vez de dois mil, podes sair daqui com...»

«Oito mil, imbecil!», respondeu o Fininho. «Porra! É uma conta assim tão difícil?»

«Acalmem-se», ordenou o Velho. «Fininho, guarda isso e baralha.»

O Fininho obedeceu sem reclamar. O Velho falava e eles faziam. O Fininho baralhou, o Careca partiu, o Velho distribuiu.

Dércio olhou para o dinheiro em cima da mesa. Tanta coisa que podia fazer com aquilo… Teria alguma hipótese de ganhar? Olhou para as cartas.

«Começas tu», disse o Velho.

Dércio acenou e pegou no 2 de Ouros, depois no Valete de Copas, até que resolveu-se pelo 7 de Copas. Jogou a carta para cima da mesa e, ao fazê-lo, sentiu uma forte tontura, como se o mundo à sua volta tivesse começado a girar mais depressa. Como se parte de si tivesse desaparecido de repente. Apoiou-se na mesa e respirou fundo. A noite prometia ser longa.



2



Rua Sem Nome, Moita

11 de Janeiro de 2009, madrugada


A casa pareceu-lhe familiar mal entrara lá, apesar de ter a certeza de nunca lá ter estado (como poderia?); por outro lado, tinha também a certeza de já a ter visitado antes. Noutra vida, talvez. Numa vida em que não andava sempre metido em esquemas.

À sua volta, rostos tapados como o seu escondiam emoções, se bem que nenhum dos três devia estar tão nervoso como ele. Não queria ter de dar razão ao irmão, mas às vezes ele próprio tinha vontade de chamar nomes a si mesmo.

O Careca arrombara a fechadura em poucos segundos sem deixar qualquer marca. O que não sabia em aritmética sabia em fechaduras e trancas. O Fininho entrara primeiro, de pistola e lanterna em punho, alinhadas com o seu olhar. O Velho foi depois, a seguir ele e, por fim, o Careca.

Não lhe agradava nada ter o Careca atrás dele. A bem dizer, não lhe agradaria ter qualquer um dos outros atrás dele. Preferia estar noutro sítio. Mas não estava. Estava na casa de um tipo qualquer que tinha qualquer coisa que o Velho queria. Ele não explicara ao certo o que era, mas devia ser bem valioso para ele próprio participar. Devia ter medo que os seus homens fugissem com o saque.

«O que é que procuramos?», perguntou o Fininho.

«O que vocês quiserem», respondeu o Velho. «Eu só estou interessado numa coisa.» Mas não disse o que era. Não fosse a cobiça sobrepôr-se à lealdade.

A casa ficava numa zona nobre da Moita, composta de vivendas e de moradias que não estavam ao alcance de qualquer bolsa. Era um casarão de aspecto antigo mas que, na verdade, devia ter pouco mais de vinte anos, trinta na melhor das hipóteses. Ainda assim, mesmo que tivesse o dobro desse tempo, teria sempre melhor aspecto do que o aterro onde ele habitava.

Os donos estavam ausentes e a perícia do Careca contribuíra para que ninguém os visse a entrar. As coisas estavam a correr bem para o grupo; já ele não podia dizer o mesmo. Mas isso era algo a que já se devia ter habituado. Se a sorte era dividida pelas famílias, o seu irmão Laurénio ficara com a maior parte. E ainda bem para ele. Dércio adorava o irmão. Era por ele que estava ali, fora por ele que participara naquele jogo, fora por ele que contraíra uma dívida que jamais esperaria pagar. No entanto, não era por isso que deixava de querer estar noutro sítio.

Após o Fininho confirmar que não estava ninguém, e que não havia alarmes ou outros sistemas de vigilância, espalharam-se pela casa. O Velho foi para o escritório procurar aquilo que só ele sabia; o Careca e o Fininho foram para a sala procurar o que lá houvesse. E Dércio foi para a cozinha, onde não havia nada para roubar (com a possível excepção de uns talheres que pareciam ser de prata), mas onde podia sentar-se e pensar com calma relativa no que raio estava ali a fazer.

Só o facto de ter a oportunidade de fazer isso era o primeiro grande sinal de que algo não estava bem. Outro era por que razão é que ele, um pelintra de terceira categoria, sem qualquer tipo de experiência naquele tipo de empreendimentos, tinha sido convidado para fazer parte daquilo? Com o azar que tinha, o melhor contributo que podia dar era não estar ali.

Os seus pensamentos foram interrompidos pelo som de duas vozes que não pertenciam a nenhum dos três homens que tinham entrado com ele na casa.

Dércio levantou-se, foi até à porta da cozinha e escutou. Não conseguia perceber as palavras, mas o timbre das vozes estava mais nítido. Uma delas não lhe podia soar menos familiar, já a outra — que lhe caíssem as orelhas se não era a sua própria voz.

Mas era claro que não era. Impossível. Apesar de não ser uma pessoa muito dada a alucinações, só podia ser ser isso que estava a acontecer. Lembrou-se da sensação que sentira ao entrar, da certeza de que já lá tinha estado. Outra alucinação. Deu um passo em frente para o corredor e a voz (a sua voz) chamou por ele.

«Dércio… vem.»

Mais por curiosidade do que por obediência, Dércio caminhou pelo corredor, seguindo a origem da voz até aos aposentos dos donos da casa. Só a cama era quase do tamanho do seu quarto, provavelmente com lençóis de seda. Teve vontade de ir à cozinha buscar uma faca e rasgar aquela merda. Que o irmão vivesse bem era resultado do seu trabalho, mas aqueles tipos que não faziam nada, que nasciam só com o rabo virado para a lua, tiravam-no do sério.

Só ficou no quarto porque a voz ainda tinha coisas para lhe dizer.

«O que eles procuram está na gaveta.»

Dércio abriu as gavetas todas que encontrou sem encontrar nada que lhe chamasse à atenção.

«É o quê?», perguntou em voz baixa. Não queria que os outros o ouvissem. Não sabia ao certo se era para eles não saberem a sua localização, se era para não perceberem que ele andava à conversa com vozes na sua cabeça.

«Procura nas gavetas»: foi tudo o que a voz disse.

Dércio vasculhou entre meias, cuecas, camisolas, comprimidos e outros itens comuns, alguns nem tanto (como um saca-rolhas), de encontrar em gavetas de quarto. Nada lhe saltava à vista como digno de interesse. Irritado, arrancou a gaveta das meias da mesa-de-cabeceira e atirou-a para cima da cama.

«Procura na gaveta», voltou a dizer a voz e Dércio percebeu, sem saber ao certo como, que era uma alucinação. Aquilo era ele a perder o juízo de vez. Queria que a voz se calasse. Queria que a voz parasse de lhe dizer o que fazer. Queria que todos deixassem de lhe dizer o que fazer.

«Eles vêm aí. Depressa.»

Dércio ignorou a voz que só existia na sua mente. Não vinha lá ninguém.

Agarrou na gaveta, com a intenção de a recolocar no sítio, e reparou que no fundo, presa com fita-cola, estava uma pequena chave, típica de cacifo.

Ouviu passos apressados a aproximarem-se da porta. Com igual pressa, arrancou a chave da gaveta e enfiou-a num ténis. Desesperado, começou a repôr as meias na gaveta. A porta abriu-se. O Fininho entrou, de pistola apontada, seguido do Velho e do Careca. O Careca vinha com um saco de compras em cada braço (os seus conteúdos iam desde garrafas de vinho mais antigas que aquela casa a pratas e jóias e gadgets). O Velho trazia apenas uma pequena caixa de madeira, pouco maior que a palma da sua mão.

«Não tens meias em casa?», perguntou o Careca, pousando os sacos.

Dércio não teve tempo de responder.

«Tu tens algo que eu quero», disse o Velho, com uma certeza inabalável.

Dércio abanou a cabeça. «Juro que não tenho nada.»

«Sabes que eu vou encontrar aquilo que tu escondes, não sabes?»

«Não sei do que está a falar.»

O Velho acenou. O Careca avançou e agarrou Dércio por trás. Dércio sentiu os braços a serem forçados, mas nem se deu ao trabalho de oferecer resistência. Entre ficar com os dois braços partidos ou levar um tiro não havia assim muito por onde onde escolher. O Velho avançou e esvaziou-lhe os bolsos, atirando o seu conteúdo para o chão.

A voz bem que o avisara. Por que razão não lhe dera ouvidos? O que haveria de tão importante naquela chave que ele enfiara dentro dos ténis?

O Velho sorriu para ele, como se de repente soubesse o que ele escondia — e onde.

Dércio sentiu um grande alívio quando o Careca lhe soltou os braços após um acenar do Velho. Infelizmente, foi uma sensação que durou pouco tempo.

«Descalça-te», ordenou o Velho.

Como é que ele descobrira?

«Já disse que não—»

O Careca deu-lhe um murro em cheio nos costados e a mentira ficou a meio. O Velho acenou (era bem feita que apanhasse um torcicolo de tanto acenar). Antes que pudesse reagir (e fazer o quê mesmo?), o Careca arremessou-o ao chão, agarrou-o pelos tornozelos e ergueu-o de cabeça para baixo.

Dércio debateu-se sem grande convicção. Sentia-se uma enguia prestes a ficar sem cabeça — logo ele que não gostava de enguias.

O Velho aproximou-se. «Isto podia ter sido muito mais fácil se tivesses colaborado.» Tirou o ténis do pé esquerdo e sacudiu-o.

O som de sirenes colocou um travão repentino na remoção de calçado.

«Alguém deve ter chamado a bófia!», comentou o Careca. «Temos de ir.»

«Não vale a pena termos pressa», disse o Velho. «Há tempo.»

Dércio ousou sentir alguma esperança. Talvez ainda se conseguisse safar.

«É escusado pensares nisso», disse o Velho, tirando-lhe o ténis que faltava e agarrando a chave antes que ela caísse para o chão.

Sorriu para o pequeno objecto na palma da mão, abriu a caixa que trazia consigo e tirou de lá uma chave maior.

«Tanta coisa por um par de chaves?», perguntou o Careca, soltando Dércio.

«Estas não são chaves normais», respondeu o Velho, acenando para o Fininho.

O Fininho apontou para Dércio e disparou, acertando-lhe no pé direito. Dércio urrou de dor e agarrou-se ao pé ferido.

O Velho colocou a chave grande na porta do quarto, rodou-a e abriu a porta. Do outro lado, ao invés do corredor por onde tinham entrado, estava um espaço em branco.

«Vamos», disse.

O Fininho seguiu-o sem hesitar. O Careca hesitou um pouco, mas foi também. Dércio ficou para trás. Era tudo uma alucinação. Só podia. A porta para o vazio fechou-se e voltou a abrir passados poucos segundos para permitir a entrada de dois agentes da Polícia Urbana de arma em punho.

«Quieto!», gritou um.

Dércio obedeceu e deixou que o revistassem. Já conhecia o procedimento.

«Veio mais alguém contigo?»

Dércio apontou para a porta. «Fugiram...»

«E deixaram-te para trás? É no que dá confiar em bandidos.»

«Deves ter feito alguma. Para te deixarem o pé nesse estado...»

«Vá, levanta-te.»

Dércio tentou levantar-se usando a cama como apoio. Os dois agentes avançaram e colocaram-no de pé sem grandes gentilezas. A bala atingira-o na zona lateral, o que permitia-lhe pousar o pé no chão, mas não evitava dor ao andar.

«O meu irmão. Liguem para ele. Ele é...»

«O teu irmão já sabe de tudo. Foi ele quem nos chamou.»

Antes que Dércio tivesse oportunidade de falar, o outro agente encarregou-se de lhe danificar a esperança.

«Desta vez estás por tua conta, disse ele.»


3



Estabelecimento Prisional de Setúbal, Ala Este

3 de Fevereiro de 2009, manhã


Três semanas. Três semanas à espera que o irmão dissesse qualquer coisa; que mexesse alguns cordelinhos para o tirar dali. E nada. De certa maneira, ele entendia que o irmão não tivesse intervindo de imediato, que o deixasse a marinar por um dia ou dois, a pensar na vida (como se isso mudasse alguma coisa). Não era a primeira vez que ia parar com os costados à cadeia, mas era primeira vez que Laurénio o ignorava por tanto tempo. Para alimentar bem essa frustração, o irmão recusara todos os seus contactos.

Era como se não se preocupasse mais com ele.

Deitado na sua cama desconfortável, na clausura da sua cela, demasiado pequena para dois, mas coabitada por quatro, Dércio contava os minutos que restavam até à abertura das portas. Atrás das grades só os guardas tinham o privilégio de saber as horas. Os guardas e aqueles como ele que tinham o seu relógio biológico sincronizado com o ambiente à sua volta. Ele era um visitante tão regular que era difícil isso não acontecer. Quase tão difícil como não tratar os guardas por tu.

Alguém gritou. Alguém estava sempre a gritar. A parte dos gritos era dispensável. Dos gritos e talvez do excesso de contacto físico no chuveiro, mas sobretudo dos gritos. Apesar de tudo, havia qualquer coisa naquele ambiente que o fazia sentir-se seguro e protegido. (Mais confiante, até.) O que era uma absoluta aberração de lógica. Se havia sítio onde lhe podiam limpar o sebo a qualquer momento, onde virar as costas ao perigo era um convite a facadas, era ali.

A sua urgência em contactar com o irmão tinha pouco a ver com uma ânsia de liberdade e mais com possíveis represálias ao irmão. Dércio aguentava bem estar preso, mas não aguentaria que Laurénio pagasse pelos seus erros. Havia pessoas com quem ele estava em dívida, pessoas que não hesitariam em cobrar ao irmão. Pessoas que não recusariam ser ignoradas.

Passos apressados e síncronos encaminhavam-se para o ponto de origem dos gritos. Os prisioneiros podiam não fazer caso (tinham de não fazer caso), os guardas não.

«Vai haver merda», disse um dos colegas de cela, encostado às grades, espreitando para o corredor.

Dos outros dois, um ainda ressonava, o outro estava na sanita a cometer um acto de consequências bem mais nefastas do que aquele que suscitara a intervenção dos guardas.

Dércio sabia os nomes dos seus companheiros de cela e o porquê de estarem ali, mas fingia não saber nada. Era melhor assim. Preferia tratá-los todos por igual, sem lhes dar nomes, ignorando-os, porém mantendo-se sempre atento ao que faziam. O que estava junto às grades chamava-se Heitor, tinha 47 anos e fora preso por assalto à mão armada; o que estava na sanita chamava-se Baltazar e estava preso por tráfico de droga; o que ressonava chamava-se Francisco e estava preso por agressão.

«Há sempre», disse o que estava na sanita. «Esses imbecis não sabem resolver os problemas deles lá fora. Têm de vir sempre foder a vida dos outros.»

Dércio escolheu não participar na conversa. Era mais seguro ficar na dele, não tomar partido de nada. Se bem que o da sanita tinha razão. Ajustes de contas eram o pão-nosso de cada dia dentro da prisão, mas havia sempre a regra do bom senso, que era: não fodas a pausa dos outros. Por causa disso, tinha parado de contar mal ouvira o grito. Até o problema estar resolvido, não iria haver pausa para ninguém.


////


Só ao fim de quase duas horas é que a situação ficou resolvida. Antes disso, Baltazar saiu da sanita e foi também para junto das grades assistir ao desenrolar dos acontecimentos; Francisco levantou-se e tentou ir à sanita, mas esquece lá isso e voltou para a cama.

E Dércio continuou deitado, à espera que o tempo passasse.

Do lado de fora, gritos de revolta, de apoio, objectos arremessados, bastonadas, o diabo a sete. Não podia estar-se mais a cagar para quem fazia o quê, ou a quem acontecia o quê. Só lhe importava uma pessoa no mundo — a mesma pessoa que pelos vistos não se importava mais com ele. Respirou fundo.

Quando a porta da cela abriu, Heitor e Baltazar deram um passo para o corredor, mas foram obrigados a recuar por um batalhão de guardas.

«Ó manco!»

Dércio ergueu a cabeça.

«Levanta-te e vem connosco.»

Dércio levantou-se e calçou-se. A ferida no pé ainda não tinha sarado por completo, mas já não precisava de ter o pé enfaixado.

Não olhou para os companheiros de cela, mas sabia que estavam os três a olhar para ele, a tentar perceber porque é que ele podia sair e eles não. Dércio também gostaria de saber isso.

«Onde é que vamos?», perguntou, uma vez afastado da cela.

«Há alguém que quer falar contigo.»

Dércio quis acreditar que seria o irmão, mas tinha poucas esperanças de que assim fosse.

«Quem?»

«Ele diz que é teu advogado. Chama-se Eliseu Lípio.»


4



Bairro do Futuro, Vale da Amoreira

1 de Abril de 2009, madrugada


Dércio nunca fora um bom corredor, ou um corredor razoável sequer: tinha um mau arranque, péssima velocidade e uma resistência típica de um homem de 60 anos fora de forma. O que era de estranhar, já que boa parte da sua rotina diária consistia em fugir das autoridades. Só que não eram as autoridades que o perseguiam daquela vez. Se fossem, a sua determinação em não ser apanhado seria bem menor.

As autoridades não disparavam a matar (por acaso até disparavam, mas ele queria acreditar que nunca fizera nada que justificasse isso), as autoridades não ameaçavam a sua família, as autoridades não apareciam e desapareciam como fantasmas. Que era o que ele gostaria de ser. Mas só pela parte do desaparecer. A parte de estar morto, ele dispensava.

Ao fim de vários minutos sem escutar ninguém, Dércio arriscou parar e respirar fundo. Era quase um luxo fazer isso, mas estava-se pouco lixando. Na verdade, não estava (estava bem acagaçado até), mas se não parasse um pouco, ainda caía para o lado.

Como ainda não caíra era algo de espantar.

Olhou em volta. Não se via ninguém na rua, mas eles estavam lá. Eles ou ele. Tinha quase a certeza que era mais do que um. Tinha de pensar numa estratégia. Não podia continuar a fugir sem destino. Talvez conseguisse encontrar um sítio onde se esconder.

A sua antiga casa não ficava muito longe dali. Havia pelo menos dez anos que não punha lá os pés, mas ainda tinha a chave do prédio. Que estava guardada numa gaveta no seu quarto (isto se a senhoria não tivesse andado lá a mexer, como era hábito dela). Portanto, casa antiga, fora de questão. Que mais opções hav—


////


Praia do Rosário, Moita

1 de Abril de 2009, 5:17


Dércio acordou com uma filha da puta de uma dor de cabeça. Parecia mentira. Foi rápido a identificar os detalhes da situação bem merdosa em que se encontrava, mas demorou a aceitá-los como reais. Nos últimos tempos, a sua vida tendia a desafiar o real de forma frequente e bizarra, mas assim era demasiado bizarro.

Estava enterrado à beira de água, só com a cabeça de fora. A parte bizarra (ou a mais bizarra) era que quem o enterrara, havia recortado o fundo de um alguidar de modo a que a sua cabeça ficasse enfiada lá dentro e depois forrara o fundo com papel de alumínio.

Uma sombra cobriu-o.

Dércio queria gritar, mas sentia-se tão pressionado pela areia contra o peito que até respirar lhe custava.

«Lamento imenso ter de te fazer isto Dércio, mas é a única maneira de salvar o meu filho.»

Era uma voz de mulher. Seria ela quem o perseguia? A voz era familiar. De há muito tempo, só não se lembrava de onde. Queria perguntar, mas se mal conseguia respirar, como é q—

Os seus pensamentos foram submergidos por um balde de água fria e salgada. Dércio cuspiu e tossiu. Veio outra descarga. E mais outra. Ele susteve a respiração e a água continuou a cair. Os pulmões prestes a rebentar. Ele prestes a desistir. (Porque é que ainda não desistira? Se todos o tinham abandonado por que razão ainda resistia?) Até que… Fechou os olhos, pensou no irmão uma última vez e deixou que a escuridão o levasse.


Fim


Continua em

INTERSECÇÕES 0.4: Fragmentos – Laurénio

AGRADECIMENTO



Obrigado pelo tempo que dispensaste a ler esta história. Espero que não tenhas deixado nada importante por fazer, tipo o teu casamento ou o nascimento de um filho, só para leres isto de uma assentada.

Se gostaste do que leste, partilha a sua opinião nas plataformas que achares adequadas. Se não gostaste, faz o mesmo. Só assim saberei onde melhorar.

Até uma próxima.



SOBRE O AUTOR



João Dias Martins é um personagem de ficção, protagonista dos romances Um Cappuccino Vermelho e A Imagem, de Joel G. Gomes, que partilha com o seu criador o gosto pela escrita.

No mundo da ficção tem vários romances publicados, entre eles Morte Inesperada, Câmara dos Horrores, O Derradeiro Mal e Um Cappuccino Vermelho; no mundo real, a sua prestação tem-se ficado pelos contos Querido, estás morto, A Fonte, O Acto de Passar a Ferro e Iguaria.

O seu mais recente projecto é INTERSECÇÕES, uma série literária que decorre no mesmo universo das séries literárias O MAL HUMANO, de Joel G. Gomes e O ÚLTIMO, de Ricardo Neves.

Descobre mais sobre os seus projectos em



e segue-o pois ele aprecia isso. (Desde que não seja stalking.)



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